sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

UM MEIO BIRUTA NAS ILHAS GREGAS

Estávamos embarcando no último vôo noturno da Alitália para Atenas, com escala em Roma, naquela sexta-feira de 1975. O Ronald e a Marlene, a Carminha e eu, que, em determinado momento, comecei a matutar: O que eu estou fazendo aqui? Para onde estão me levando?Com este mistério e esta curiosidade na cabeça, entramos no ônibus, que nos levaria até o avião, estacionado junto aos outros, já preparados para voar, num grande pátio em frente do Salão de Embarque, no velho Galeão.
Cintos afivelados, voltei às minhas indagações e me lembrei de que os três haviam me convidado para uma conversa séria dias atrás, quando então me propuseram conhecer a Itália e a Grécia, até aquele momento inexploradas pelos habituais viajantes. Concordei de imediato com a viagem, conforme me disseram, embora não me lembrasse de nada. Havia batido com a cabeça no meio-fio, num acidente de carro, três meses antes, e estava completamente fora do ar. Comia, bebia, andava, ia trabalhar, visitava os amigos, mas totalmente alheio a cada situação.
Até que eles pensaram muito bem: Vamos tentar dar um choque de situação: línguas, costumes, climas, gente, tudo bem diferente e bem forte, pra ver se o homem “acorda”, depois de todos os tratamentos médicos, medicamentosos e, inclusive, psiquiátricos. O choque funcionou.
Já no avião, comecei a perceber alguma coisa, manifestando minha vontade de beber champagne e brindar a nova aventura ultramarina. Tomei duas taças e minha cabeça começou a abrir. Ninguém percebeu. Só eu tinha consciência do acontecido e deixei ficar. Era tão bom ser meio-doido!
No Aeroporto Fiumiccino, fiquei fascinado com a beleza da mulher italiana, o cheiro delicioso de queijo parmesão e a tremenda felicidade de estar num outro país. Estas coisas sempre me encantaram. Nossa estada em Roma seria na volta, assim, re-embarcamos e voamos direto para Atenas. E lá, as surpresas seriam muito maiores para todos nós.
Fomos direto conhecer a Acrópole, num dia de neve intensa. Fato raríssimo, segundo os próprios gregos. Conhecemos o Mercado de Pulgas e, claro, todas as demais ruínas da Grécia antiga. Este panorama nos remetia às aulas de história universal, quando fizemos diversos comentários sobre o conhecimento que ainda tínhamos.
Ficamos hospedados num hotel antigo, na Praça Omonia, bem no centro da cidade, num ponto privilegiado, próximo de tudo. Andávamos pelo centro de Atenas com muito desembaraço, embora não entendêssemos nenhuma palavra em grego e o inglês que falávamos não adiantava muito, pois eles não gostavam de se comunicar nessa língua. A comunicação era feita através da mímica e com murmúrios.
Assim mesmo, decidimos, por sugestão do Ronald, conhecer as famosíssimas ilhas gregas, universalmente decantadas. De mímica em mímica, chegamos ao Porto do Pireu, muito movimentado, com bares e restaurantes e navios que faziam a rota das ilhas. Contratamos o mais próximo, que oferecia um passeio de um dia, com permanência nas três ilhas: Hidra, a maior, Pórus e Aegina, o berço dos pistaches, com a volta para Atenas ao entardecer.
Estávamos ansiosos para ver o decantado por do sol no Mediterrâneo e o Ronald excitadíssimo com as fotos que iria registrar. Na primeira parada, comprei um boné de marinheiro grego, daqueles pretos, para me integrar à paisagem como um nativo. Nunca conseguiria...

Andamos muito pelas ilhas, conhecemos pequenos museus e pontos turísticos, comemos pistache, ao pé, e nos encantamos com o poente mediterrâneo. Realmente, um esplendor!
Naquela altura, eu já estava bem melhorzinho. Conversava normalmente, entendia bem os assuntos, estava quase bom.
Desembarcamos no Pireu e o Ronald sugeriu: Vamos comer uns camarões por aqui?
Parecem sensacionais. Dos muitos restaurantes enfileirados, escolhemos um onde podíamos escolher os camarões expostos num aquário e eles os preparavam à moda grega. Não era com arroz à grega, apenas, camarão à moda grega. Logo, pensamos ser um prato delicioso. Entusiasmamo-nos com o direito de cada um de nós poder escolher seis camarões. Uma fartura! Cada um, então, apontou os seus e nos sentamos para tomar o vinho nacional que acompanharia o prato típico. Curiosamente, eles só serviram as cabeças fritas dos camarões e o Ronald, cozinheiro de escol, perguntou: E o corpo dos camarões? O garçom respondeu: Isto é pro pessoal da cozinha, senhor, eles é que gostam.
O quê? Nós também gostamos é do corpo, não das cabeças, argumentamos no nosso ítalo-anglo-grego-gálico-aramaico-português, que não foi entendido, é lógico.
Mas, como para turista tudo é festa, enfrentamos os crânios dos camarões com muito vinho grego e deu tudo certo. Comida típica, heim? Saímos meio desapontados, palitando os dentes pra tirar as antenas agarradas e fomos pegar um táxi.
Aí, o Ronald sugeriu que fôssemos de metrô, para conhecer como esse transporte funcionava na Grécia. Achamos ótimo. Chegamos à estação e havia dois trens estacionados. Eu, já meio metido, me ofereci para entrar num deles e saber qual dos dois ia para Omonia Square. Assim que entrei, as portas se fecharam e o trem partiu. Só deu tempo de olhar pela janela e ver os três me olhando como se fosse pela última vez. Dei um adeus simbólico, com a mão aberta num gesto de despedida. Como eles me acreditavam ainda muito doido, devem ter pensado que eu não conseguiria chegar a Atenas, muito menos à praça do nosso hotel. E, pela cara de incredulidade deles, também achei que aquele adeus seria para sempre e que, talvez, com muito esforço, eles conseguissem me localizar num trem Trans-Siberiano, indo para a China ou para a Mongólia.
Roberto H. Brandão – janeiro/2011.

domingo, 23 de janeiro de 2011

REMENDOS NO RECESSO

Como homem livre e independente, vivo fazendo minhas coisinhas por conta própria e de acordo com indicação de filhos e amigos. De certa forma, sempre tem funcionado a contento, mas, desta vez, aconteceu uma curiosidade.
Levei duas camisas para virar o colarinho. Daqueles aproveitamentos de
camisas boas, ainda com o tecido íntegro em todas suas partes, mas só com os colarinhos puídos. A-pe-nas os colarinhos.
Tentei levá-las num conserto de roupas que conhecia, no Buritis, meu antigo bairro, mas já haviam fechado a loja. Saí meio desapontado e fui olhando e procurando, no caminho de volta, alguma consertadora. E encontrei, sem nenhuma referência, uma loja no bairro Gutierrez, que oferecia o serviço necessário.
Estacionei o carro e entrei na loja, onde tive uma bela recepção por um senhor de meia idade, muito sério e compenetrado. A loja era muito bem arrumada, tudo nos lugares certos. Era um armarinho: botões, linhas, agulhas, etc. e tal. Fiquei bem impressionado. Expliquei o serviço, ele me deu o preço de R$ 15,00 para cada camisa e saí satisfeito. Concluí: se ficar bom o serviço, vou adotar o consertador.
Uns dez dias depois, na data marcada, fui buscar as camisas que me foram entregues emboladas, amarrotadas, numa sacolinha de plástico meio fajuta. Abri a sacola e falei: “O senhor vai me entregar as camisas assim, sem passar?” E ele me respondeu. “Aqui, não passamos, senhor, só costuramos”.
Heim? Vi que não adiantava discutir, pois tinha entregado as camisas limpinhas e bem passadas e estava recebendo-as como trapos velhos, sem o menor cuidado. Pensei, deixa pra lá. Verifiquei a virada do colarinho que estava legal. Dava pra usar durante mais um tempo, sem problema. Discutir pra quê?
E hoje, a curiosidade. Aprontava-me, de manhã, para o trabalho e resolvi usar uma das tais camisas consertadas. É uma camisa americana, daquelas com botões pequenos no colarinho, toda abotoada na frente. Fui abotoando, de baixo pra cima e aí, a surpresa. Eles viraram o colarinho mesmo, mas, simplesmente, costuraram o dito cujo ao contrário, ou seja, viraram a gola para trás e costuraram no lugar, mas, ao contrário. É até difícil de explicar. É como se a camisa fosse toda certinha, com casas do lado esquerdo e botões do lado direito, só que o colarinho estava com a casa do lado direito e o botão do lado esquerdo e ainda virado para dentro.
Como? Também não sei explicar. O costureiro ou costureira virou o colarinho e o pregou no corpo da camisa, só que ao contrário. E não teve o cuidado de casear no lado certo, o esquerdo, e repregar o botão do lado direito. Uma loucura!
Será que vale a pena dar uma lição na loja? Acho que vou perder um tempinho e chegar até lá para pedir meu dinheiro de volta ou a confecção correta do serviço.
Aproveitei o recesso e levei também dois paletós para pequenos reparos. Um azul marinho, para costurar os bolsos internos e o forro das mangas e um verde mescla, para colocar uma pala no forro, puído de tanto ficar pendurado.
Mesmos preços, R$ 15,00 cada, mas numa outra loja, aqui, pertinho da Toca. Esta, até, estava recomendada pela proximidade, não pela qualidade do serviço.
Sobre os paletós, outro descalabro. Foi colocada uma pala de outro tecido, que não o do forro, no paletó verde. Pelo menos, tinha alguma coisa de verde, e como é na parte interna do paletó, vá lá. Sobre o azul marinho, os forros dos bolsos foram, mal e porcamente, costurados com linha preta, que some no escuro do paletó. Mas, as bainhas dos forros das mangas foram feitas com linha branca, cujas laçadas apareciam em toda a volta da manga, na parte externa. Resolvi, com uma caneta esferográfica, pintar os pontinhos aparentes.
Fico pensando: Será que esses profissionais dos consertos têm problemas de visão distorcida, divergente, convergente ou o que valha? Ou qual seria o órgão fiscalizador dessa atividade?
Roberto H.Brandão – janeiro/2011.

domingo, 16 de janeiro de 2011

LUA DE MEL AL MARE

No casamento, creio, um dos melhores momentos é o da lua-de-mel.
Por diversos fatores. Os noivos, certamente apaixonados, estão com todas as balas nas respectivas agulhas, prontas para serem detonadas. Principalmente, se tratarmos de casamentos realizados antes da revolução das pílulas anticoncepcionais, ocorrida na década de 60.
A virgindade ainda era considerada como um fator de reconhecimento para o marido de que aquele santo material ainda não tinha sido descoberto! Pura besteira. Mas as regras que moviam as relações homem/mulher ainda estavam atreladas à preservação da virgindade, até mesmo a masculina, em alguns casos mais exigentes e conservadores.
Portanto, para virgens ou não, a lua-de-mel era o momento cruciante da relação.
Se fossem, ótimo e se não fossem, ótimo também.
Assim, programamos nossa lua-de-mel a bordo do extraordinário navio Júlio Caesar, da frota de uma empresa marítima italiana, numa viagem do Rio para Montevidéu, Punta del’Este e Buenos Aires. Volta direta pelo Cabo de São Roque, navio-transatlântico um pouco menor de uma empresa espanhola, mas, ainda assim, bem confortável.
Mas, que desastre! Vejam só.
As cenas românticas dos filmes hollywoodianos, sempre mostravam casais recostados nas grades de proteção do convés dos navios, em cenas de longos beijos ao luar pleno de claridade e enlevo. Olhares ternos e suplicantes: Quero mais, mais e mais...
Só mesmo os atores conseguiam viver este fantástico idílio amoroso porque, com certeza, nos estúdios cenográficos não ocorria o balanço ininterrupto e loucamente enjoativo dos navios em alto mar. Principalmente na passagem do Cabo de Santa Catarina, no roteiro citado, onde os navios viram uma casquinha sobre as águas revoltas e frias da corrente de Humboldt, que sobe do Pólo Sul até a costa brasileira e se amplifica no litoral catarinense.
Embarcamos, com os planos concebidos para uma viagem inesquecível. E foi mesmo. Até hoje me lembro, 43 anos depois...
A primeira noite, razoável. Veja bem, razoável. Pela manhã, vestimos as roupas de banho e fomos para a colazione del mattino, no imenso restaurante. Do bufê fartíssimo, só consegui comer uma pequena maçã e ela uma pera. Nada mais, nem café, que só o cheiro já nos enjoava. Deixa pra lá, vamos nadar que esse enjôo melhora. Quando chegamos na piscina, repleta de banhistas felizes, olhamos para a água, que balançava descontroladamente, vimos e sentimos o que devia estar acontecendo nos nossos estômagos. Meia volta e corremos pelo longínquo corredor até o camarote para a primeira liberação da comida. Não vou dizer o nome para não estragar a história. Suamos bastante, mas ficamos livres daquela refeição sumária da manhã. Resolvemos permanecer no quarto e só sairmos na hora do almoço que era anunciado alto e bom tom, pelos alto-falantes de bordo: L´ora di pranzo, l´ora di pranzo, com um sino no fundo. Saímos ressabiados do camarote e nos sentamos à mesa para o lauto almoço. Queixamo-nos do enjôo ao chefe que nos aconselhou a comer somente massas, comidas mais sólidas, frutas carnudas, enfim, nada de líquidos, sopas, etc.
Pronto, pensei, estamos resolvidos. Servimo-nos das deliciosas sugestões do chefe e voltamos para a mesa. Não deu tempo. Na primeira garfada a correria. E assim foi durante os três dias e três noites até Montevidéu, onde pisamos em terra firme. Conseguimos almoçar e, em Punta del’Este, jantar. Nada como um chão firme.
Mais uma noite a bordo e aportamos em Buenos Aires, para dez dias de ótimas comidas, bebidas finíssimas, tangos, boleros e tudo o mais.
Na volta, a mesma correria marítima até o Rio de Janeiro. Enfim, salvos.
Roberto H. Brandão – janeiro/2011

domingo, 9 de janeiro de 2011

MORAR NA AMÉRICA I

MORAR NA AMÉRICA I

Fui convidado para uma festinha, reunião dos bolsistas brasileiros em Highland Park.
Era uma espécie de congraçamento da turma que já morava naquela cidade há um mês, como hóspedes das famílias locais. O programa chamava-se Experiment in International Living e cumpria, com excelente resultado, esta meta.
O violão, claro, era o meu cartão de visitas, meu intérprete, meu abre-alas, meu tudo. E, com ele, enfrentamos a gelada noite de – 25º, naquela cidadezinha ao norte de Chicago. Entre ruas enlameadas de neve e chuva, chegamos à casa dos Boyle. Fomos todos apresentados e o Roberto convidado a tocar umas músicas brasileiras para os vizinhos e amigos. Na época, eu era um craque. Sem qualquer modéstia que, graças a Deus, nunca tive. Toquei algumas músicas para os gringos, que mal sabiam sobre a bossa-nova, ainda insipiente naquela terra. Uns afro-sambas do Baden que já chamavam, um pouco, a atenção das simplórias famílias ali reunidas. Eis que, num pulo, surge uma mulher bonita na minha frente. Olhando bem fundo nos meus olhos, ela falou: “Eu sou de Juiz de Fora, e você?”. “Eu sou de Belo Horizonte. Você mora aqui?” “Me casei com o Frank - apontou para o marido - e moro em Chicago há quinze anos. Você gostaria de gravar um disco comigo?” “Heim?!? Gravar um disco nos Estados Unidos?” “Claro, você canta, toca algum instrumento?” “Eu canto”, disse ela. “Este é o meu primeiro disco.” E me deu de presente um LP Frank & Valucha. “E o segundo, gostaria que fosse com você. Vamos gravar amanhã?” “A que horas, onde e como vamos fazer para ensaiar?”, indaguei. “Não precisamos ensaiar, não. Sai tudo na hora. É só você levar as letras dessas músicas, que ainda não conheço.” Ok. Dei meu telefone a ela, da casa dos Chapman, onde estava hospedado, e combinamos um encontro em Chicago, no dia seguinte, à tarde. Fiquei baratinado. Vou gravar um LP nos Estados Unidos. E nem bem cheguei aqui, pensei.
No dia seguinte, violão nas costas e orientado pelo Arthur entrei no metrô para me encontrar com a Valucha, seu nome artístico. Ela me esperava na saída da estação com uma amiga, que me apresentou e explicou: “Ela é desenhista e vai fazer a capa do nosso disco.” Pensei comigo: Ainda bem que estou vestindo minha melhor blusa.
Uma gola rolê, azul marinho, que acabei perdendo, tempos depois, numa aventura na Praia Grande, a bordo de uma motocicleta.
Gravamos dezoito músicas acompanhados por dois músicos amigos dela, que tocavam flauta e contra-baixo. Um quarteto bem excêntrico, duas vozes, um baixo e uma flauta transversal. E o repertório: Samba de uma nota só, Desafinado, Canto de Ossanha, Berimbau, Garota de Ipanema, misto de afro-sambas e bossa-nova, que eram todas as que estavam começando a ser tocadas na América. Pensei: Vamos explodir de vender.
Enquanto cantávamos, a amiga dela, Joyce, desenhava sem parar. No final da gravação, apresentou um lay-out muito bacana. Nós dois cantando e os músicos, ao fundo, acompanhando os cantores com uma cara boa, alegres e felizes. Ela usava um chale mexicano, jogado nos ombros, que fazia um efeito fantástico.
Dali, saímos direto para Old Town a fim de arrumar um apartamento para eu morar, pois o sucesso parecia iminente.
Arrumamos um quarto e sala mobiliado, bem baratinho, e ela me prometeu um emprego como professor de violão na Chicago Folk & Country Song’s School of Music.
Consegui o emprego fácil depois de tocar Berimbau e Canto de Ossanha do Baden e do Vinícius. Na época, eu estava uma bala no violão.
Fiquei imaginando minha vida em Chicago, LP fazendo sucesso no Hit Parade, aulas de violão a US$ 15 por hora, no centro da boemia. Era o que tinha pedido a Deus!
E quase deu certo.
Não deu por quê? Depois eu conto.
Roberto H. Brandão - janeiro 2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

NO JOÀO SEBASTIÃO BAR

Estávamos no famoso bar paulista, à Rua Major Sertório, para ouvir o não menos famoso Pedrinho Mattar, pianista com formação clássica na Alemanha, que vinha se dedicando a tocar Música Popular Brasileira, principalmente bossa nova, e jazz, no qual era especialista em acordes maravilhosos e um dedilhado peculiar.
O seu jeito de tocar era absolutamente excêntrico. Como músico interrompido, sei que cada instrumentista tem estilo próprio, mas o do Pedrinho era especial, ou seja, um piano muito cheio, completamente ocupado. Ele não deixava espaço para nenhum outro instrumento, só mesmo para o piano!
Naquele dia, depois de um almoço que o mestre-cuca Dorival havia preparado na casa dele e da Lúcia, em São Paulo, à Rua João Moura, em Pinheiros, onde mamãe e eu estávamos hospedados, aproveitamos a presença dela, também, para ficar tomando conta da Maria Augusta, ainda pequenininha, e irmos todos ao bar, à noite. (Repetirei isto muitas vezes mais: a Maria Augusta, carinhosamente chamada de Guta, foi o bebê mulher mais lindo que já vi. Hors concours.).
Pegamos o fusquinha do Dorival e conseguimos estacionar quase em frente ao João Sebastião. Noite de sorte, sem dúvida. Também, conseguimos uma mesa sem reserva, portanto, escondidíssima. Mas, o que interessava mesmo era ouvir a boa música do Pedrinho. Pedimos a bebida de praxe, Whisky Drury’s, umas batatinhas fritas e só. A grana era muito curta.
Escondidos, assistimos à primeira parte do show: Pedrinho, no piano; Sabá, no contrabaixo; e Toninho Calça-Curta, na bateria. Um super show! O trio era entrosado demais e o repertório, o da nossa preferência.
Os músicos retornaram para a segunda parte do show, quando o Pedrinho, apontando para a nossa mesa, falou: “Eu queria dizer a vocês que, hoje, temos visitantes ilustres aqui: a Lúcia, o marido Dorival e o irmão dela, Roberto. São amigos meus de longa data e os irmãos, músicos excepcionais.” Levantamo-nos para agradecer o intenso aplauso dos presentes. E ele continuou: “Por favor, venham até aqui.” Fomos, meio encabulados, mas enfrentamos a platéia.
O bar tinha um pequeno palco, elevado, onde os músicos se apresentavam. Tenho que registrar que adoro palmas. Quando subimos no palco, ele falou: “Vou pedir que eles cantem a música que eu os ouvi cantando, lá em Santos, na minha casa, onde éramos vizinhos. Por favor, Lúcia e Roberto, cantem Baby it’s cold outside, e abriu com os acordes clássicos do Ray Charles, na gravação com a Betty Carter. Cantamos como se estivéssemos no Carnnegie Hall e os aplausos vieram fartos e estimulantes.
Mais uma, outra, peguem um violão para o Roberto, e eu já estava sentado num banquinho, mesmo, foi fácil! Saíram muitas músicas lindas e gostosas de tocar e cantar. Encerramos a noitada com a música Ausência de Você, do Carlos Lira e do Vinícius de Morais, da peça Pobre Menina Rica. Sucesso antigo da dupla Lúcia e Maninho.
Roberto H. Brandão – Dezembro/2010.