quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A PRIMEIRA TERÇA-FEIRA DO MÊS

Sempre muito aguardada, a primeira terça-feira do mês traz a Belo Horizonte o Jimmy Duchowny com sua banda, para apresentação no Ah! Bon, restaurante de alto nível clientela/freguesia selecionada, no bairro de Lourdes. O jazista seleciona os músicos pelo mundo afora - Estados Unidos, Rio, Inglaterra, Japão - monta uma banda variada de aficionados por jazz e convida outro grupo de apreciadores do bom jazz, para lhes proporcionar Jam sessions, extremamente agradáveis. Pena que só aconteça uma vez por mês!
Faço parte do segundo grupo, que é composto pelo Ronald, nosso chef e chefe, o José Arthur Fiúza, o Carlinhos e eu, fixos. E os eventuais: Baldonedo, Geraldo, Roberto Brant, além dos eventualíssimos Fred Matta Machado, Rubinho e Bilé, Paulinho Dani e esposa, a Patrícia Avellar e uma amiga, e mais outros menos conhecidos. É uma boa turma!
Ontem, 1º.de fevereiro de 2011, primeira terça-feira do mês, além da boa música, aconteceu um fato inusitado.
O contrabaixista Chiquinho, pela primeira vez no grupo, esquecera em casa os óculos de enxergar perto. Disse ele que ao sair de casa, meio correndo, como todo músico vive, com o contra-baixo acústico na algibeira, deixou os óculos em cima da mesa da sala. Mas, não se preocupou porque, como tocam tudo meio de cor, improvisadamente, achou que não fosse precisar da muleta oftálmica. No entanto, o Jimmy, pra variar, convidou o saxofonista inglês, Nick Payton, que toca com partitura, e as distribuiu para os outros músicos, pois iam executar um repertório novo. Chiii! - pensou o Chiquinho - E agora?
Ao invés de ter que voltar até sua casa, pediu ao Jimmy que descolasse, entre seus amigos na plateia, uns óculos emprestados. Ele chegou até a nossa mesa e viu três óculos, escolheu o mais bonito e levou emprestado. Eram os óculos do Carlinhos, nosso consultor jazzístico.
O Carlinhos é impressionante. Conhece tudo sobre jazz, seus intérpretes, o ano em que tocaram ou gravaram, nascimento dos músicos, as composições das bandas, o estilo que adotaram, enfim, tudo, tudo, sobre o jazz e sua história. Uma verdadeira enciclopédia jazzística. Só que não toca nenhum instrumento, não é músico e viu, com certo interesse, que emprestando seus óculos para o baixista, talvez, quem sabe, poderia receber uns fluidos musicais que o transformassem, também, num tocador de contra-baixo.
Ele pensou isto, mas não falou, só que nós percebemos a mudança na fisionomia dele e começamos a dar corda ao assunto.
Para reforçar, contei a história de um amigo paulista que, de tanto pedir emprestada a japona de outro companheiro, tocador de violão, acabou aprendendo o instrumento e tornou-se um craque, até já tendo gravado um disco solo.
Essas coisas acontecem e se até o fim da noitada musical o Carlinhos tivesse um choque? Na hora de pagar a conta, por exemplo, já com os óculos de volta, desse nele uma loucura de fazer uma experiência com o contrabaixo? Seria até muito bacana. Ou ainda se o contrabaixista se esquecesse de devolver os óculos e fosse embora com eles? Fatalmente, o Carlinhos teria que ir buscá-los na casa do Chiquinho e, naquela de conversa vai, conversa vem, talvez resolvesse mesmo aprender a dedilhar o baixão?
Mas, não aconteceu nada disto. Os óculos foram devolvidos sem nenhuma emoção, não vieram acompanhados de nenhuma mágica transformadora e nem o Carlinhos ficou mais sábio do que já é na história do jazz.
Que pena!
Mais uma ótima da noite, nos encontramos com o amigo José Carlos Farah. Um prêmio.