Estou me lembrando, hoje, da primeira e única vez em que ganhei na loteria.
Nos idos de 1966, morava na casa da Carminha e trabalhava no recém-instalado Escritório Dr. Manuel Hermeto Jr., instalado na sala 204 do Ed. Araújo Silva, na Av. Afonso Pena, quase esquina da Praça Sete. Meu tio, o Dr. Manuel, também meu padrinho de batismo, resolveu re-ativar sua banca advocatícia para me ajudar e ensinar, pois eu tinha acabado de me formar na gloriosa Faculdade de Direito do Sul de Minas, em Pouso Alegre, no sul do Estado.
Eu vinha de uma bolsa de estudos, nos Estados Unidos, onde havia frequentado um estágio no poderoso Arthur Chapman & Associates, escritório conceituadíssimo de advogados em Chicago, Illinois. Estava, como se diz hoje, com as balas na agulha. Papai e mamãe moravam em Ribeirão Preto e a Lúcia havia se casado com o Dorival e moravam em São Paulo.
E eu morava na casa do Dr. Célio e D. Santa, à Rua Olímpio de Assis, 77, na Cidade Jardim, uma bela construção em estilo moderno. Eu dormia no quarto dos meninos, o José Carlos e o Celinho e, eventualmente contávamos com a companhia do Rogério, primo deles, que dormia num colchão no chão, coberto até a cabeça com o lençol.
Todo dia, acordava bem cedo. Depois de um banho rápido, tomava o café e descia a rua para pegar o ônibus elétrico na Rua Conde Linhares. O trajeto era rápido e, em dez minutos, já estava desembarcando na Praça Sete. Foi neste caminho até o escritório, que me seguiu um vendedor de bilhetes, insistente e atrevido que, de tanto falar, me convenceu a comprar uma tirinha. Eu nem tinha dinheiro para comprar nada, mas ele foi me seguindo e dizia: Vai correr agora, doutor – não perca esta oportunidade. Doutorzinho, quando chegar no seu escritório, o seu Antônio já poderá estar escrevendo o número do seu bilhete no quadro. Olha aqui, doutor, é o ano do seu nascimento. É sorte na certa. E o bilhete é do cavalo, claro que vai dar...
Ele me conhecia e sabia da proximidade do nosso escritório, a que horas eu chegava e saía, alguns dados pessoais, etc., pois tinha perguntado ao meu tio. Era um vendedor vivo e atento.
Passei em frente do Banco da Lavoura e pensei, se ganhar, ainda compro este banco. Encorajei-me, enfiei a mão no bolso e vi que dava para comprar uma tirinha e ainda sobravam uns trocados para o ônibus da volta. Assim, para me livrar dele, comprei uma tirinha, das três que sobravam do número 42.741. Enfiei-a no bolso e fui trabalhar. Na verdade, era um trabalho efêmero, pois ficava sentado no escritório esperando um reclamante de algum direito – trabalhista, cível, criminal, administrativo – qualquer um, para contar sua história e ver se tinha algum direito a reclamar. E os clientes eram raríssimos.
Naquele dia, fiquei sentado contando as moscas no teto até o meio-dia, quando desci para almoçar. No térreo do meu prédio, funcionava a casa lotérica Campeão da Avenida, que vendia bilhetes e apresentava os resultados do dia num quadro negro, acima da fachada da vitrine. O Sr. Antônio, a quem o bilheteiro havia se referido, de terno azul-marinho muito surrado, uma gravata suja, apertada e torta, camisa suada, sapatos com a meia-sola já furada, subia a escada à frente da loja e, com um papelzinho na mão, ia lendo os números e escrevendo na lousa, a partir do quinto prêmio, para causar sensação. Como o meu bilhete era o do sorteio do meio-dia, fiquei em pé no passeio, esperando o resultado.
O Sr. Antônio tinha um estranho sestro para escrever os números. Ele lia primeiro, silenciosamente; depois, com os lábios, ia acompanhando a escrita no quadro. Número quatro, ele mexia os lábios para frente e para trás quatro vezes, número dois, mexia duas vezes, e assim, demoradamente, escrevia todos os resultados. Uma multidão sempre se acomodava em frente da loja, no passeio e até na rua, para assistir ao funcionário lançar os números. Também eu fiquei acompanhando o ritual, emocionado, com minha tirinha na mão.
Quando já estava no segundo prêmio, ele começou a mexer os lábios e escrever, quatro,
Dois - fiquei gelado – sete ... arregalei os olhos - quatro... quase desmaiei e, finalmente, um. Ganhei!
Dei um pulo e entrei correndo na loja para resgatar o meu prêmio. Naquela fração de segundo, me senti milionário. Vi-me comprando um carro Mercedes zero km, me casando com a Carminha e comprando uma casa, também na Cidade Jardim, com ternos de casimira inglesa do Hermano, camisas da Casa Alberto, gravatas inglesas Dunhill, francesas Cardin e italianas Pozanni e sapatos novos do Petrika e do Altemio Spinelli, no armário; almoçando no Cipriani’s, em Veneza, e jantando no Alfredo’s, em Nova Iorque. Enfim, sonhei todos os meus sonhos diários, naquele interminável segundo. Enquanto apresentava a tirinha ao caixa, sonhei que tinha chegado de um passeio de iate pelas Ilhas Gregas e que tinha trazido uma mala grande vazia, só para carregar a bufunfa! Que nada, ao recebê-la, continuava tão pobre quanto antes, só com um dinheirinho a mais para pegar os ônibus elétricos e, talvez, comer uma coxinha no Café Nice, no meio da tarde, para matar a fome.
Ganhei uma mixaria, mas me emocionei demais e valeu a pena, ter a sensação de ser milionário, pelo menos num segundo. Humilde, guardei o dinheirinho no bolso de cima do paletó - era tão pouco! -, e fui almoçar.
domingo, 27 de março de 2011
domingo, 20 de março de 2011
MERENGUERO EN PUERTO PLATA
(Uma viagem musical pelo Caribe)
A República Dominicana é a capital do merengue, ritmo delicioso que movimenta toda a população da Ilha de Dominica, primeira parada de Cristóvão Colombo, no mar do Caribe. De lá, ele partiu para o descobrimento de todas as Américas. Como Colombo, também começo pela Dominica o relato das minhas peripécias musicais.
Nessas andanças caribenhas, patrocinadas pelo programa Partners of the Américas, me envolvi, em cada país, num imbróglio musical. Os fellows, bolsistas como eu, dos Companheiros das Américas, tinham como meta envolver-se com as populações locais, num exercício de convivência internacional.
Na capital do merengue, nos aventuramos a participar de um concurso desse ritmo frenético que, curiosamente, o dançarino só movimenta a parte de baixo do quadril. No popular, a bunda. Devia chamar-se, então, bundengue. Sem jogo de cintura, desisti no primeiro confronto. Pudera! Com este corpinho de toureiro aposentado e duas hérnias de disco!
O Caribe é, talvez, a maior e mais variada região musical do planeta. Vejam só! Na Jamaica, o reggae; em Cuba a rumba; no México, os mariachis com suas baladas românticas; em Trinidad&Tobago, o calipso e as steel bands (bandas de tambor de petróleo). Ainda, o mambo, ritmo plenamente distribuído em todos os países da América Central, e mais o citado merengue, que se estabelece como a trilha sonora do Golfo do México. Ah! Também vêm dos Estados Unidos, os blues, originários das cidades anglo/francesas banhadas pelo mar do Caribe, como New Orleans, principalmente.
Em Trinidad, por exemplo, nos metemos a praticar a dança da altura, onde colocam um sarrafo horizontal de bambu, amparado nos extremos, e os dançarinos vão se enrolando para passar por baixo da estaca sem derrubá-la, dançando ao ritmo do calipso. Fui um fracasso, derrubei o sarrafo de cara. E teve gente que passou abaixo de oitenta centímetros. Neste caso, minhas hérnias de disco foram também decisivas.
Em Tobago, fui convidado a acompanhar, com um violão acústico, uma steel band, na música What´s going on. Impossível! A banda, com mais de cinquenta participantes tocando naqueles tambores de óleo, produzia um som altíssimo, que contaminava toda a ilha. Com o ouvido colado na caixa do violão, eu nem conseguia ouvir o que eu mesmo estava tocando. Sugeri minha substituição por outro fellow, que tocou sax alto com muito sucesso. O som da banda é lindíssimo e contagiante.
Já no México, alguns anos antes, surpreendi os mariachis, numa praça no centro da Capital, com músicas brasileiras de sucesso internacional: Berimbau, Canto de Ossanha, Garota de Ipanema, Samba de Verão, etc. Os quatro, de sombrero mexicano negro, me acompanharam. Numa boa!
Em Cuba, não fui e nem irei.
Em Nassau, nas Bahamas, fui visitar o Peter M. Lesley, um sempre saudoso amigo, e levei um violão brasileiro de presente para a mulher dele, a Kay. Lá, para entrar com o violão, tive que tocar com a banda Blind Blake Trio, que dá as boas-vindas aos visitantes, no aeroporto local. Toquei, mas só para provar que era músico e que não estava contrabandeando o instrumento. Vejam só! E foi ótimo!
Durante toda a minha estada em Nassau, toquei, no presente da Kay, em churrascos e jantares em casas de amigos dos meus anfitriões, o que gerou, ainda, um convite para apresentação de músicas brasileiras num dos cassinos, em Paradise Island.
De volta ao Brasil, convidei o Flávio Simão e o Zuza para montarmos um trio, que apresentaria, no cassino, não só canções brasileiras, como também american folk & country songs, nas quais éramos craques. Voz, violão e gaita. Mas, o contrato foi frustrado porque o cantor/gaitista do futuro trio brasileiro, o Zuza, também conhecido como Braga ou Coromandel, estava com medo de andar de avião. Pode?! Ensaiamos durante três meses e, na hora do embarque, o próprio resolveu comunicar-nos que o Banco Mineiro do Oeste, onde ele trabalhava, não tinha autorizado a viagem. Mentira pura. Eu, heim! Enfiamos o violão e a gaita no saco e por aqui ficamos.
Sobre uma violada em Puerto Plata, amparada pela Via Láctea, já contei, na crônica “A Via-Láctea no Caribe”, onde estão os detalhes daquela aventura noturna.
Na Jamaica, em Ocho Rios, fiquei hospedado numa pousada campestre, onde o reggae corria solto toda noite. Decidi acompanhar os músicos com um violão emprestado. Também não deu. Para dar certo, teria que ter estado possuído pelo espírito do Bob Marley, o que tornaria a coisa mais fácil. Era só pedir ajuda aos nativos, que acreditam e praticam a magia negra em toda a ilha. Em Kingston, a capital, a troco de umas cervejas locais - aliás, excelentes! -, fiz uma apresentação no bar do hotel cinco estrelas, onde estávamos hospedados. Ganhei, ainda, um run jamaicano, num concurso de menor barriga, entre os frequentadores da piscina do hotel. Imaginem o tamanho da barriga dos outros concorrentes!
Numa outra ocasião anterior, tive, ainda, uma parada musical em Puerto Rico: My heart’s devotion, let it stay back in the ocean, frase inicial da música “América”, do grande maestro Leonard Bernstein, na peça West Side Story. Àquela época, estava viajando com um grupo de estudantes brasileiros, para uma temporada de estudos nos Estados Unidos, e tivemos que fazer uma baldeação forçada a caminho de Miami. Trocamos de avião, um velho Constelation, por um potente Boeing 707 da PANAM. Não deu outra, me encaixei numa banda que animava o bar do aeroporto, pois ficamos estacionados uma noite na ilha. A banda se mandou e eu passei a noite tocando violão para os turistas. Foi ali que conheci as deliciosas cervejas Budweiser, por conta do dono do bar. Adotei-as para sempre.
A República Dominicana é a capital do merengue, ritmo delicioso que movimenta toda a população da Ilha de Dominica, primeira parada de Cristóvão Colombo, no mar do Caribe. De lá, ele partiu para o descobrimento de todas as Américas. Como Colombo, também começo pela Dominica o relato das minhas peripécias musicais.
Nessas andanças caribenhas, patrocinadas pelo programa Partners of the Américas, me envolvi, em cada país, num imbróglio musical. Os fellows, bolsistas como eu, dos Companheiros das Américas, tinham como meta envolver-se com as populações locais, num exercício de convivência internacional.
Na capital do merengue, nos aventuramos a participar de um concurso desse ritmo frenético que, curiosamente, o dançarino só movimenta a parte de baixo do quadril. No popular, a bunda. Devia chamar-se, então, bundengue. Sem jogo de cintura, desisti no primeiro confronto. Pudera! Com este corpinho de toureiro aposentado e duas hérnias de disco!
O Caribe é, talvez, a maior e mais variada região musical do planeta. Vejam só! Na Jamaica, o reggae; em Cuba a rumba; no México, os mariachis com suas baladas românticas; em Trinidad&Tobago, o calipso e as steel bands (bandas de tambor de petróleo). Ainda, o mambo, ritmo plenamente distribuído em todos os países da América Central, e mais o citado merengue, que se estabelece como a trilha sonora do Golfo do México. Ah! Também vêm dos Estados Unidos, os blues, originários das cidades anglo/francesas banhadas pelo mar do Caribe, como New Orleans, principalmente.
Em Trinidad, por exemplo, nos metemos a praticar a dança da altura, onde colocam um sarrafo horizontal de bambu, amparado nos extremos, e os dançarinos vão se enrolando para passar por baixo da estaca sem derrubá-la, dançando ao ritmo do calipso. Fui um fracasso, derrubei o sarrafo de cara. E teve gente que passou abaixo de oitenta centímetros. Neste caso, minhas hérnias de disco foram também decisivas.
Em Tobago, fui convidado a acompanhar, com um violão acústico, uma steel band, na música What´s going on. Impossível! A banda, com mais de cinquenta participantes tocando naqueles tambores de óleo, produzia um som altíssimo, que contaminava toda a ilha. Com o ouvido colado na caixa do violão, eu nem conseguia ouvir o que eu mesmo estava tocando. Sugeri minha substituição por outro fellow, que tocou sax alto com muito sucesso. O som da banda é lindíssimo e contagiante.
Já no México, alguns anos antes, surpreendi os mariachis, numa praça no centro da Capital, com músicas brasileiras de sucesso internacional: Berimbau, Canto de Ossanha, Garota de Ipanema, Samba de Verão, etc. Os quatro, de sombrero mexicano negro, me acompanharam. Numa boa!
Em Cuba, não fui e nem irei.
Em Nassau, nas Bahamas, fui visitar o Peter M. Lesley, um sempre saudoso amigo, e levei um violão brasileiro de presente para a mulher dele, a Kay. Lá, para entrar com o violão, tive que tocar com a banda Blind Blake Trio, que dá as boas-vindas aos visitantes, no aeroporto local. Toquei, mas só para provar que era músico e que não estava contrabandeando o instrumento. Vejam só! E foi ótimo!
Durante toda a minha estada em Nassau, toquei, no presente da Kay, em churrascos e jantares em casas de amigos dos meus anfitriões, o que gerou, ainda, um convite para apresentação de músicas brasileiras num dos cassinos, em Paradise Island.
De volta ao Brasil, convidei o Flávio Simão e o Zuza para montarmos um trio, que apresentaria, no cassino, não só canções brasileiras, como também american folk & country songs, nas quais éramos craques. Voz, violão e gaita. Mas, o contrato foi frustrado porque o cantor/gaitista do futuro trio brasileiro, o Zuza, também conhecido como Braga ou Coromandel, estava com medo de andar de avião. Pode?! Ensaiamos durante três meses e, na hora do embarque, o próprio resolveu comunicar-nos que o Banco Mineiro do Oeste, onde ele trabalhava, não tinha autorizado a viagem. Mentira pura. Eu, heim! Enfiamos o violão e a gaita no saco e por aqui ficamos.
Sobre uma violada em Puerto Plata, amparada pela Via Láctea, já contei, na crônica “A Via-Láctea no Caribe”, onde estão os detalhes daquela aventura noturna.
Na Jamaica, em Ocho Rios, fiquei hospedado numa pousada campestre, onde o reggae corria solto toda noite. Decidi acompanhar os músicos com um violão emprestado. Também não deu. Para dar certo, teria que ter estado possuído pelo espírito do Bob Marley, o que tornaria a coisa mais fácil. Era só pedir ajuda aos nativos, que acreditam e praticam a magia negra em toda a ilha. Em Kingston, a capital, a troco de umas cervejas locais - aliás, excelentes! -, fiz uma apresentação no bar do hotel cinco estrelas, onde estávamos hospedados. Ganhei, ainda, um run jamaicano, num concurso de menor barriga, entre os frequentadores da piscina do hotel. Imaginem o tamanho da barriga dos outros concorrentes!
Numa outra ocasião anterior, tive, ainda, uma parada musical em Puerto Rico: My heart’s devotion, let it stay back in the ocean, frase inicial da música “América”, do grande maestro Leonard Bernstein, na peça West Side Story. Àquela época, estava viajando com um grupo de estudantes brasileiros, para uma temporada de estudos nos Estados Unidos, e tivemos que fazer uma baldeação forçada a caminho de Miami. Trocamos de avião, um velho Constelation, por um potente Boeing 707 da PANAM. Não deu outra, me encaixei numa banda que animava o bar do aeroporto, pois ficamos estacionados uma noite na ilha. A banda se mandou e eu passei a noite tocando violão para os turistas. Foi ali que conheci as deliciosas cervejas Budweiser, por conta do dono do bar. Adotei-as para sempre.
segunda-feira, 14 de março de 2011
UMA FAZENDA E UM SABOR CENTENÁRIOS
São coincidências felizes que, às vezes, acontecem.
Fomos visitar uma fazenda, bem no centro de uma cidade do interior de Minas, em Andradas, construída há 130 anos, com um parreiral variado de uvas Chardonnay, Pinot Noir, Merlot e Riesling. Uma maravilha! Do alto, descortina-se a fantástica Serra da Mantiqueira, no sul do Estado, com suas extraordinárias belezas e, naquele momento, a aproximação de uma bendita chuva de verão.
Convidados para uma pajelança formidável, com.queijos, chouriços, pães, tomates recheados e espumantes de primeiríssima linha, vimos que o bom gosto impera naquela terra. Fomos servidos, com a entrada, com dois tipos de espumantes brancos brut, varietais exclusivos de Chardonnay, na mais perfeita elaboração pelo método champenoise, em temperatura corretíssima e abertos com o cuidado de um profissional. Sentimo-nos como se estivéssemos num dos feudos vinícolas da região de champagne, na França.
Conversa boa, descontraída, com apreciação dos móveis antigos muito bem conservados, assoalho de tabuado corrido gasto e bem encerado, pé direito alto com lustres e sancas de época, tudo muito bonito e extremamente aconchegante.
Senti-me como, tempos atrás, na cidade de Malmo, na Suécia, fomos jantar num restaurante clássico de pesadas cortinas de veludo verde escuro, lambris de madeira nobre nas paredes, lustres de cristal da Bohemia, onde o rei e sua comitiva, segundo dizem, vão, uma vez por ano, para saborear um faisão dourado, sacrificado em sua homenagem. Sentamo-nos numa mesa enorme, dois brasileiros e um francês, compradores das empacotadeiras de leite Tetra-Pak, recepcionados pelo presidente da empresa.
Lá, em Malmo, o prato principal da casa, faisão, veio acompanhado de vinhos, também competentemente escolhidos pelo maitre, que fez questão de nos servir, o tempo todo, como se fôssemos uma mesa da realeza sueca. Era uma atenção especial aos estrangeiros, naquele longínquo sul do país gelado.
Até me lembro de um episódio curioso ocorrido durante aquele jantar nórdico. A refeição transcorria muito bem até que senti ter mastigado uma pedra ou coisa semelhante. Fez aquele barulhinho típico de dente quebrado e o maitre, sempre atento, aproximou-se e me viu, discretamente, colocando uma bolinha de chumbo no canto do prato. Ao meu lado, ele falou: Excuse me, sir. You are a lucky man. The one who gets one of the bullets that killed the pheasant will have good lucky forever.
Fiquei meio sem graça, mas logo entendi. Como é difícil catar todos os chumbinhos da cartucheira usada para matar o lindo bicho, às vezes, alguma escapa à atenção do cozinheiro, o que justifica o maitre ficar sempre por perto para sair com aquela conversa da sorte do embaraçado comensal.
Quanto a mim, fiquei feliz, é lógico, mas por outro lado, preocupado se teria que remendar o dente fracionado, lá mesmo, ou se daria para esperar até nossa volta ao Brasil. E deu certo, pois quando cheguei ao hotel, verifiquei que tinha perdido só uma lasquinha do molar direito.
Na maravilhosa fazenda do sul de Minas, felizmente, não quebrei nenhum dente, com qualquer parte do saboroso frango ensopado, servido na ocasião. Ainda, deliciamo-nos com um espumante rosé, também comparável aos centenários originais franceses.
Valeu a pena!
Sugestão de back-ground musical: SLIDES, com Richard Harris
Fomos visitar uma fazenda, bem no centro de uma cidade do interior de Minas, em Andradas, construída há 130 anos, com um parreiral variado de uvas Chardonnay, Pinot Noir, Merlot e Riesling. Uma maravilha! Do alto, descortina-se a fantástica Serra da Mantiqueira, no sul do Estado, com suas extraordinárias belezas e, naquele momento, a aproximação de uma bendita chuva de verão.
Convidados para uma pajelança formidável, com.queijos, chouriços, pães, tomates recheados e espumantes de primeiríssima linha, vimos que o bom gosto impera naquela terra. Fomos servidos, com a entrada, com dois tipos de espumantes brancos brut, varietais exclusivos de Chardonnay, na mais perfeita elaboração pelo método champenoise, em temperatura corretíssima e abertos com o cuidado de um profissional. Sentimo-nos como se estivéssemos num dos feudos vinícolas da região de champagne, na França.
Conversa boa, descontraída, com apreciação dos móveis antigos muito bem conservados, assoalho de tabuado corrido gasto e bem encerado, pé direito alto com lustres e sancas de época, tudo muito bonito e extremamente aconchegante.
Senti-me como, tempos atrás, na cidade de Malmo, na Suécia, fomos jantar num restaurante clássico de pesadas cortinas de veludo verde escuro, lambris de madeira nobre nas paredes, lustres de cristal da Bohemia, onde o rei e sua comitiva, segundo dizem, vão, uma vez por ano, para saborear um faisão dourado, sacrificado em sua homenagem. Sentamo-nos numa mesa enorme, dois brasileiros e um francês, compradores das empacotadeiras de leite Tetra-Pak, recepcionados pelo presidente da empresa.
Lá, em Malmo, o prato principal da casa, faisão, veio acompanhado de vinhos, também competentemente escolhidos pelo maitre, que fez questão de nos servir, o tempo todo, como se fôssemos uma mesa da realeza sueca. Era uma atenção especial aos estrangeiros, naquele longínquo sul do país gelado.
Até me lembro de um episódio curioso ocorrido durante aquele jantar nórdico. A refeição transcorria muito bem até que senti ter mastigado uma pedra ou coisa semelhante. Fez aquele barulhinho típico de dente quebrado e o maitre, sempre atento, aproximou-se e me viu, discretamente, colocando uma bolinha de chumbo no canto do prato. Ao meu lado, ele falou: Excuse me, sir. You are a lucky man. The one who gets one of the bullets that killed the pheasant will have good lucky forever.
Fiquei meio sem graça, mas logo entendi. Como é difícil catar todos os chumbinhos da cartucheira usada para matar o lindo bicho, às vezes, alguma escapa à atenção do cozinheiro, o que justifica o maitre ficar sempre por perto para sair com aquela conversa da sorte do embaraçado comensal.
Quanto a mim, fiquei feliz, é lógico, mas por outro lado, preocupado se teria que remendar o dente fracionado, lá mesmo, ou se daria para esperar até nossa volta ao Brasil. E deu certo, pois quando cheguei ao hotel, verifiquei que tinha perdido só uma lasquinha do molar direito.
Na maravilhosa fazenda do sul de Minas, felizmente, não quebrei nenhum dente, com qualquer parte do saboroso frango ensopado, servido na ocasião. Ainda, deliciamo-nos com um espumante rosé, também comparável aos centenários originais franceses.
Valeu a pena!
Sugestão de back-ground musical: SLIDES, com Richard Harris
terça-feira, 8 de março de 2011
NOSTALGIA NO BUONA TÁVOLA
Um almoço à base de frutos do mar é sempre muito gostoso. Principalmente, para nós mineiros, afastados a quatrocentos quilômetros do litoral.
Domingo passado, fiz uma proposta ao Pedro e à Luciana para almoçarmos uma moqueca de badejo com camarões à moda capixaba. E, deste programa domingueiro, regado a muitas cervejas, depois do cafezinho, convidei os dois para um licor, lá na Toca. Falei que era um Amarula geladinho, bem ao ponto para o domingo chuvoso e frio. Eles toparam. Quando descíamos a Rua Alagoas, avistei a cabeleira branca do Eloy, no Buona Távola, restaurante do Edmundo. Pedi ao Pedro que parasse para abraçar o amigo/irmão, que não via há muito tempo. Descemos e fui recebido como um rei. Abraços, beijos carinhosos e confissões de amor eterno e saudade amarga. Na mesa, outro amigo/compadre, o Juarez, com quem também não me encontrava há milênios. Que tarde feliz!
O Eloy, quase que como um ímã, quando me vê, lembra imediatamente do violão. Então, logo pediu licença ao Edmundinho para buscá-lo, no jipe. Concedida a licença, entregou-me a finíssima peça construída por um luthier de Nova Lima, que pode ser comparada com a dos grandes do mundo. Violão excelente, com cordas novas, no ponto para um concerto de domingo à tarde.
Hermano - ordenou ele -, toque aquela música que você compôs para o Pedro.
Calmamente, comecei a entoar uma canção que havia composto quando a Carminha estava grávida e, à época, não era possível detectar o sexo do nascituro, até sair da barriga da mãe.
Assim, imaginando uma filha-mulher, comecei a compor uma canção chamada Lara Pedra, que era o nome que pretendia dar à menininha. Mostrei os primeiros acordes a outro amigo/irmão, o Brant, que, também, começou a rabiscar a letra: “Vens por uma estrada azul, viajas, entre um céu de açúcar, luas, asteróides nebulosas. Teus caminhos de menina te anunciam cá na terra, és flor, és água, és pedra...”
Mas, não nasceu a Pedra, e sim, o Pedro Emiliano. Que alegria! Cara fechada, cabeludo, o ouriço do mato transformou-se num homem bonito, dócil e generoso. O meu Pedrão que, ali no restaurante, com a Luciana, limitou-se aos licores e logo ambos se despediram. Parece que eles sentiram que o novo programa era mais meu.
Assim, os dois, Pedro e Luciana tomaram os licores lá no restaurante mesmo e se retiraram. Eles não confiaram muito naquela improvisada tarde de domingo. Ciao pai!
Voltei ao violão e aos amigos e recomeçamos a cantoria. Em pouco tempo, eu estava abrindo o peito e cantando para toda a Savassi.
Ainda, lembramo-nos de um clube fechado que havíamos fundado há alguns anos atrás chamado Organization des Amis de La Divine Bouteille - OADB. Esta confraria, que alegrou e motivou nossas vidas por muito tempo, é traduzida literalmente como: Organização dos Amigos da Divina Garrafa. Com este nome, é fácil imaginar e prever o que aconteceu durante os anos seguintes. O Juarez, financista de escol, chegou a calcular que tomamos mais de uma tonelada de whisky escocês. Dividido por uma caixa de doze garrafas... façam as contas.
Na época, se usava beber essa bomba atômica chamada Scotch Whisky. Um dia ainda vou escrever somente sobre a OADB. Fiquem atentos, pois o inspirador e fundador dessa organização nobre e bem intencionada é também outro amigo/irmão, o Flávio Simão. Rima rica, heim?
Subitamente, e para nossa alegria, o Pedro e a Luciana voltaram e estacionaram na frente do restaurante. Perguntei: Que bom, Pedrão, voltaram? E eles responderam em uníssono mineiro: Uai, nós não poderíamos perder uma tarde destas...
Realmente, a tarde foi fantástica!
Começamos tocando músicas do velho repertório: Marinheiro Só, Te entrega Corisco,
América, Jamaica Farewell, Dans mon ile, e depois, partimos pra outras mais novas, que só o Eloy conhece: Almir Sater & Friends.
E, parodiando o Garfunkel, no Concerto do Central Park: What a Day.
Belo Horizonte, 7 de março de 2011.
Recomendo escutarem a música Entre dos Águas interpretada pelo Paco de Lucia,
inserida, hoje, no blog.
Domingo passado, fiz uma proposta ao Pedro e à Luciana para almoçarmos uma moqueca de badejo com camarões à moda capixaba. E, deste programa domingueiro, regado a muitas cervejas, depois do cafezinho, convidei os dois para um licor, lá na Toca. Falei que era um Amarula geladinho, bem ao ponto para o domingo chuvoso e frio. Eles toparam. Quando descíamos a Rua Alagoas, avistei a cabeleira branca do Eloy, no Buona Távola, restaurante do Edmundo. Pedi ao Pedro que parasse para abraçar o amigo/irmão, que não via há muito tempo. Descemos e fui recebido como um rei. Abraços, beijos carinhosos e confissões de amor eterno e saudade amarga. Na mesa, outro amigo/compadre, o Juarez, com quem também não me encontrava há milênios. Que tarde feliz!
O Eloy, quase que como um ímã, quando me vê, lembra imediatamente do violão. Então, logo pediu licença ao Edmundinho para buscá-lo, no jipe. Concedida a licença, entregou-me a finíssima peça construída por um luthier de Nova Lima, que pode ser comparada com a dos grandes do mundo. Violão excelente, com cordas novas, no ponto para um concerto de domingo à tarde.
Hermano - ordenou ele -, toque aquela música que você compôs para o Pedro.
Calmamente, comecei a entoar uma canção que havia composto quando a Carminha estava grávida e, à época, não era possível detectar o sexo do nascituro, até sair da barriga da mãe.
Assim, imaginando uma filha-mulher, comecei a compor uma canção chamada Lara Pedra, que era o nome que pretendia dar à menininha. Mostrei os primeiros acordes a outro amigo/irmão, o Brant, que, também, começou a rabiscar a letra: “Vens por uma estrada azul, viajas, entre um céu de açúcar, luas, asteróides nebulosas. Teus caminhos de menina te anunciam cá na terra, és flor, és água, és pedra...”
Mas, não nasceu a Pedra, e sim, o Pedro Emiliano. Que alegria! Cara fechada, cabeludo, o ouriço do mato transformou-se num homem bonito, dócil e generoso. O meu Pedrão que, ali no restaurante, com a Luciana, limitou-se aos licores e logo ambos se despediram. Parece que eles sentiram que o novo programa era mais meu.
Assim, os dois, Pedro e Luciana tomaram os licores lá no restaurante mesmo e se retiraram. Eles não confiaram muito naquela improvisada tarde de domingo. Ciao pai!
Voltei ao violão e aos amigos e recomeçamos a cantoria. Em pouco tempo, eu estava abrindo o peito e cantando para toda a Savassi.
Ainda, lembramo-nos de um clube fechado que havíamos fundado há alguns anos atrás chamado Organization des Amis de La Divine Bouteille - OADB. Esta confraria, que alegrou e motivou nossas vidas por muito tempo, é traduzida literalmente como: Organização dos Amigos da Divina Garrafa. Com este nome, é fácil imaginar e prever o que aconteceu durante os anos seguintes. O Juarez, financista de escol, chegou a calcular que tomamos mais de uma tonelada de whisky escocês. Dividido por uma caixa de doze garrafas... façam as contas.
Na época, se usava beber essa bomba atômica chamada Scotch Whisky. Um dia ainda vou escrever somente sobre a OADB. Fiquem atentos, pois o inspirador e fundador dessa organização nobre e bem intencionada é também outro amigo/irmão, o Flávio Simão. Rima rica, heim?
Subitamente, e para nossa alegria, o Pedro e a Luciana voltaram e estacionaram na frente do restaurante. Perguntei: Que bom, Pedrão, voltaram? E eles responderam em uníssono mineiro: Uai, nós não poderíamos perder uma tarde destas...
Realmente, a tarde foi fantástica!
Começamos tocando músicas do velho repertório: Marinheiro Só, Te entrega Corisco,
América, Jamaica Farewell, Dans mon ile, e depois, partimos pra outras mais novas, que só o Eloy conhece: Almir Sater & Friends.
E, parodiando o Garfunkel, no Concerto do Central Park: What a Day.
Belo Horizonte, 7 de março de 2011.
Recomendo escutarem a música Entre dos Águas interpretada pelo Paco de Lucia,
inserida, hoje, no blog.
segunda-feira, 7 de março de 2011
A MINHA CERVEJA
Conhecer uma cerveja artesanal, para um viciado como eu, é a melhor oportunidade de encontrar e beber a cerveja perfeita.
Já tentei mil fórmulas para encontrar a minha eleita: Guinness com Brahma ou com Antarctica, Caracu com Kaiser ou com Schin, Budweiser com Devassa Negra, enfim, venho tentando ao longo da vida descobrir meu sabor favorito. Num dia destes, até, bebi uma que chegou bem perto. Tomei num bar em New York, indicada por um cervejeiro de boa cepa, a Heineken dark. Sem dúvida, é muito boa mesmo. Cheguei até a encontrá-la, também em Denver, no Colorado, onde esgotei o estoque da Delikatessen local. No Brasil, infelizmente, ela não chega.
Mas, quem busca, incansavelmente, como eu, um dia, acaba encontrando.
Atualmente, estou bebendo um blend que inventei: duas partes de cerveja Antarctica Sub Zero e uma parte de Xingu. A mistura fica bem agradável. Numa taça longa, então, fica bem gostosa.
E, nestas andanças pelo interior de Minas, compareci a um seminário da Epamig chamado Dia de Campo, no município de Maria da Fé, para uma transferência de tecnologia sobre o plantio, adubação e colheita das oliveiras, que, por sinal, estão indo muito bem nos contra-fortes da belíssima Serra da Mantiqueira. Lembrem-se deste nome: Maria da Fé.
O sul de Minas Gerais é um primor, uma região linda e progressista.
Depois das explicações técnicas, quando percorremos boa parte da área plantada da Fazenda Experimental, fomos convidados para um almoço num amplo galpão onde, num cantinho, vislumbrei um barril de chope com um nome estranho Kraemerfass.
Cheguei mais perto e ouvi uma conversa entre três senhores, falando sobre cerveja. E é deste papo que eu gosto. Sentei-me numa mesinha ao lado e fiquei, intrometidamente, ouvindo a conversa, de olho fixo no barril de chope. Nenhum movimento para serví-lo!
E da prosa, percebi que um dos presentes era o dono da tal cervejaria artesanal de nome também estrangeiro: Newton Litwinski. Um expert em cervejas e, também, produtor/fazendeiro de oliveiras.
Vale aqui uma observação. A oliveira é uma planta muito delicada e bonita, com as folhas verdes em cima e brancas por baixo, num caule fino e estiloso.
É uma planta linda que só poderia gerar bons frutos/as: as azeitonas que, tanto servem para comer puras ou ao vinagrete ou, ainda, virar azeite, produto nobre da culinária mundial. No caso de Maria da Fé, a Epamig está produzindo o primeiro azeite Extra Virgem do Brasil. Sensacional.
Mas, voltemos ao papo da cerveja.
Num determinado momento, não resisti e me intrometi na conversa dos três e fui dando meus palpites. Contei sobre o blend que havia inventado e preparei um suborno para o Litwinski me servir logo um chope. Vale lembrar que o dia estava muito quente e o barril estava geladinho! Pedi uma amostra. Ele consultou seu xará, o Nilton, gerente da Fazenda, que argumentou que não poderia abrir uma exceção para mim porque daí, todo mundo também iria querer e ainda faltava uma palavra do presidente da Epamig para começar os comes e bebes. Fiquei seco!!
Mas voltei à carga. “Ô Newton, me dá só um copinho, escondido atrás da parede da cozinha, etc., etc. Estou com tanta vontade que já estou começando a babar e você sabe que, cervejeiro quando baba...” Adverti.
Aí, ele se convenceu, ou melhor, foi convencido. Chamou o servente num canto e o orientou para me servir um chope escondido, bem escondido na cozinha. E na tulipa. “Nada de copo de plástico, heim?” Falou, ríspido.
E aí, quando tomei, aconteceu aquele negócio sobre o nome da cidade: tem que ter fé...
E a minha foi tanta, que acabei tomando a melhor cerveja da minha vida. Deliciosa. Leve e encorpada, uma delícia!
A Kraemerfass, podem ter certeza, honra perfeitamente o slogan que tem: A VERDADEIRA CERVEJA.
Seu proprietário e produtor, o Newton Litwinski, é um craque. Com certeza, está produzindo a melhor cerveja do Brasil, para o meu gosto, no município de Delfim Moreira, no sul do estado de Minas Gerais.
Aí, sentaram-se à nossa mesa duas cervejeiras cariocas, a Sheila e uma amiga, que haviam observado, de longe, a movimentação estranha dos componentes da mesa para esconder alguma coisa. Talvez fosse, até, uma tulipa de chope. Quem sabe?
Da mesma forma tentaram, tentaram e foram dobrando o Litwinski e sua esposa Fátima,
que concordaram em servir-lhes uma tulipa escondida atrás da parede da cozinha.
As duas voltaram com as caras mais felizes do mundo. É claro, adoraram a Kraemerfass, como eu.
Lógico que, depois do discurso tomamos todas. Estratégicamente sentados ao lado do barril e bem apresentados ao tirador do chope, passamos uma tarde muito agradável no rincão das oliveiras. É uma pena que a Kraemerfass, cuja tradução literal é barril de cerveja Kraemer, não venha para Belo Horizonte. Se viesse, iria alugar a casa vizinha e de lá, não sairia jamais.
O sul de Minas surpreende, sempre!
Já tentei mil fórmulas para encontrar a minha eleita: Guinness com Brahma ou com Antarctica, Caracu com Kaiser ou com Schin, Budweiser com Devassa Negra, enfim, venho tentando ao longo da vida descobrir meu sabor favorito. Num dia destes, até, bebi uma que chegou bem perto. Tomei num bar em New York, indicada por um cervejeiro de boa cepa, a Heineken dark. Sem dúvida, é muito boa mesmo. Cheguei até a encontrá-la, também em Denver, no Colorado, onde esgotei o estoque da Delikatessen local. No Brasil, infelizmente, ela não chega.
Mas, quem busca, incansavelmente, como eu, um dia, acaba encontrando.
Atualmente, estou bebendo um blend que inventei: duas partes de cerveja Antarctica Sub Zero e uma parte de Xingu. A mistura fica bem agradável. Numa taça longa, então, fica bem gostosa.
E, nestas andanças pelo interior de Minas, compareci a um seminário da Epamig chamado Dia de Campo, no município de Maria da Fé, para uma transferência de tecnologia sobre o plantio, adubação e colheita das oliveiras, que, por sinal, estão indo muito bem nos contra-fortes da belíssima Serra da Mantiqueira. Lembrem-se deste nome: Maria da Fé.
O sul de Minas Gerais é um primor, uma região linda e progressista.
Depois das explicações técnicas, quando percorremos boa parte da área plantada da Fazenda Experimental, fomos convidados para um almoço num amplo galpão onde, num cantinho, vislumbrei um barril de chope com um nome estranho Kraemerfass.
Cheguei mais perto e ouvi uma conversa entre três senhores, falando sobre cerveja. E é deste papo que eu gosto. Sentei-me numa mesinha ao lado e fiquei, intrometidamente, ouvindo a conversa, de olho fixo no barril de chope. Nenhum movimento para serví-lo!
E da prosa, percebi que um dos presentes era o dono da tal cervejaria artesanal de nome também estrangeiro: Newton Litwinski. Um expert em cervejas e, também, produtor/fazendeiro de oliveiras.
Vale aqui uma observação. A oliveira é uma planta muito delicada e bonita, com as folhas verdes em cima e brancas por baixo, num caule fino e estiloso.
É uma planta linda que só poderia gerar bons frutos/as: as azeitonas que, tanto servem para comer puras ou ao vinagrete ou, ainda, virar azeite, produto nobre da culinária mundial. No caso de Maria da Fé, a Epamig está produzindo o primeiro azeite Extra Virgem do Brasil. Sensacional.
Mas, voltemos ao papo da cerveja.
Num determinado momento, não resisti e me intrometi na conversa dos três e fui dando meus palpites. Contei sobre o blend que havia inventado e preparei um suborno para o Litwinski me servir logo um chope. Vale lembrar que o dia estava muito quente e o barril estava geladinho! Pedi uma amostra. Ele consultou seu xará, o Nilton, gerente da Fazenda, que argumentou que não poderia abrir uma exceção para mim porque daí, todo mundo também iria querer e ainda faltava uma palavra do presidente da Epamig para começar os comes e bebes. Fiquei seco!!
Mas voltei à carga. “Ô Newton, me dá só um copinho, escondido atrás da parede da cozinha, etc., etc. Estou com tanta vontade que já estou começando a babar e você sabe que, cervejeiro quando baba...” Adverti.
Aí, ele se convenceu, ou melhor, foi convencido. Chamou o servente num canto e o orientou para me servir um chope escondido, bem escondido na cozinha. E na tulipa. “Nada de copo de plástico, heim?” Falou, ríspido.
E aí, quando tomei, aconteceu aquele negócio sobre o nome da cidade: tem que ter fé...
E a minha foi tanta, que acabei tomando a melhor cerveja da minha vida. Deliciosa. Leve e encorpada, uma delícia!
A Kraemerfass, podem ter certeza, honra perfeitamente o slogan que tem: A VERDADEIRA CERVEJA.
Seu proprietário e produtor, o Newton Litwinski, é um craque. Com certeza, está produzindo a melhor cerveja do Brasil, para o meu gosto, no município de Delfim Moreira, no sul do estado de Minas Gerais.
Aí, sentaram-se à nossa mesa duas cervejeiras cariocas, a Sheila e uma amiga, que haviam observado, de longe, a movimentação estranha dos componentes da mesa para esconder alguma coisa. Talvez fosse, até, uma tulipa de chope. Quem sabe?
Da mesma forma tentaram, tentaram e foram dobrando o Litwinski e sua esposa Fátima,
que concordaram em servir-lhes uma tulipa escondida atrás da parede da cozinha.
As duas voltaram com as caras mais felizes do mundo. É claro, adoraram a Kraemerfass, como eu.
Lógico que, depois do discurso tomamos todas. Estratégicamente sentados ao lado do barril e bem apresentados ao tirador do chope, passamos uma tarde muito agradável no rincão das oliveiras. É uma pena que a Kraemerfass, cuja tradução literal é barril de cerveja Kraemer, não venha para Belo Horizonte. Se viesse, iria alugar a casa vizinha e de lá, não sairia jamais.
O sul de Minas surpreende, sempre!