sábado, 30 de abril de 2011

QUEM É?

Tem a fleugma do inglês,
o bom gosto do francês
a cara  de português
e o resto de brasileiro.
Em seu linguajar se lê,
ou melhor, a gente vê
que do antigo PSD
ele deve ser herdeiro...

Herdeiro do raposismo,
daquele malabarismo
que deu ao partidarismo
patrimônio extraordinário
num passado de esplendor,
quando o velho Senador
não era contra ou a favor
mas “antes pelo contrário”...

Enfim,é um diplomata
Sempre de terno e gravata
ele traz consigo, inata,
a imagem do tranquilão.
Pra ele tá tudo bem;
não se exalta com ninguém;
trabalha assim como quem
é cônscio da profissão...

É o príncipe da cortesia.
Lá na sua Assessoria
de muita fotografia
e desenho feito a mão
ele é sempre consultado
e seu palpite acatado.
Eis seu nome “só... letrado”:
R...... H...... B......

 
Jornalista Sertório Canedo
Setembro de l982

QUANDO TRABALHÁVAMOS JUNTOS NA METROBEL, O JORNALISTA SERTÓRIO CANEDO, GRANDE AMIGO SUMIDO, ESCREVEU A QUADRINHA ABAIXO BRINCANDO COMIGO. FOI UMA FARRA ENORME NA REPARTIÇÃO PÚBLICA, POIS TODOS QUERIAM TAMBÉM UMA QUADRA.

ASSIM, DESCOBRI UMA FOTO MINHA DAQUELA ÉPOCA QUE TALVEZ TENHA INSPIRADO O ARTISTA, QUE VAI PUBLICADA JUNTO.

SÓ PARA MOVIMENTAR O BLOG...
OBRIGADO AMIGO SERTÓRIO.

segunda-feira, 25 de abril de 2011




MON FRÈRE JEAN BOTÍN
Entrei na pousada Botín, em Madrid, convidado pelo dono, meu companheiro de pelejas e escaramuças nas fronteiras francesas e espanholas. Ele se dizia cansado de viver nas matas e florestas europeias, quase como um mercenário, e resolvera mudar de ramo. Sumiu.
Depois de me saber nas Astúrias, Jean me enviou um bilhete com o seguinte convite: “Venha, Brandão, de onde estiveres, porque estou inaugurando uma hospedaria em Madrid e você será nosso primeiro hóspede.” 
Nós dois gostávamos mesmo era da aventura. Eu, com o alaúde a tiracolo e ele com maço de papel e pena, vagávamos naquelas terras, compondo e cantando. Algumas vezes, nos metíamos numa refrega de família. Nada pessoal, mas defendíamos sempre as famílias cujas filhas eram as mais bonitas do burgo. Desde a Idade Média, essas famílias lutavam entre si, para aumentar seus castelos e terras e nós nos juntávamos não pela causa deles, mas apenas para ganhar uma noite numa taverna, com as mais lindas do lugar. Nossa causa era bem mais justa.
Na condição de menestréis, havíamos cavalgado por toda a Europa, cantando Plaisir D’Amour, Voici Le Mois de May, A La Claire Fontaine, Brave Marin e muitas outras canções maravilhosas, que deixamos marcadas para as gerações futuras.
A inauguração do Botín, como ficou conhecido o estabelecimento do meu amigo, de certa forma, também era uma aventura, pois além da pousada, montou um restaurante com características especiais. As hospedarias não podiam servir comidas e bebidas porque pelas leis locais iriam concorrer com os estabelecimentos congêneres e dificultar seus negócios. Assim, as carnes a serem preparadas tinham que ser levadas pelos próprios hóspedes, para serem assadas no forno à lenha. Corria o ano de 1725 e nas nossas andanças nunca havíamos topado com um lugar fino e elegante para comer e beber. Existiam somente as tabernas para a plebe. Muito rústicas, lugar de bêbados e briguentos que, por qualquer moeda, topavam até desmanchar o lugar. Até então, as cerimônias pantagruélicas finas só aconteciam dentro dos próprios castelos e eram restritas aos nobres e suas famílias, que não frequentavam aqueles ambientes.
Assim, o Botín era um lugar diferente, montado por um francês tão observador que, já naquela época, havia entendido o caráter infiel dos homens. Muito esperto, montou um restaurante com dois andares e uma pousada no fundo. No rés da rua, uma decoração simples e discreta, mesas rústicas e bancões de madeira, sem toalhas, para os transeuntes da Calle de los Cuchilleros, cerca de La Plaza Mayor de Madrid. Estilo taberna mesmo, mas, no porão, mesas reservadas, atoalhadas com todo requinte, louça inglesa, cristais e prataria para os incógnitos namoradores de toda a Europa, que lá compareciam para seus encontros secretos.
Para dar personalidade musical à casa, ele convidou para o cravo um árabe amigo dele chamado Simão, excelente músico e vibrante cantador que, também como nós, era um nômade. Assim, o Jean, o Simão e eu formamos um trio de grande sucesso nas noites madrileñas. Conhecedores de mais da metade do mundo e com um repertório variado de músicas inglesas, francesas, celtas e alemãs, quando embalados pelos aplausos, embebidos pelo vinho e encantados pelos olhares furtivos das donzelas presentes, tocávamos e cantávamos do cair da tarde até o raiar do dia, quando saía o último cliente.
Com aquela surpresa de um novo lugar fino para se hospedar, comer, beber e ouvir boa música, as pessoas se hospedavam e traziam consigo as suas preferências gastronômicas a serem preparadas por um consultor catalão que ele havia conhecido e contratado, apelidado de chef Don, que passou a comandar aquela cozinha sofisticada.  Aliás, eles nem podiam manter um estoque tão variado de carnes, pois cada hóspede tinha uma preferência: coelhos, faisões, javalis, codornas e por aí vai. Assim, o requintado cozinheiro ajudou a dar fama à hospedaria. Cada receita por ele preparada era única. 
O Botín foi ficando famoso e chegava gente de toda a Europa, norte da África e até da distante Ásia quando apareciam, vez ou outra, umas caras diferentes meio amareladas e de olhos pequenos e puxados para conhecer a original hospedaria/restaurante.
Certa vez, um grupo de branquelos suados, sujos e barulhentos, vindos do norte da Europa, baixou na casa trazendo a receita de uma bebida, que o Botín adotou de pronto: cevada, malte e água. Assim, ele começou a produzir uma cerveja única, escura, bem maltada, forte mesmo, que entrou no cardápio para alegria dos frequentadores.
Para ficar por perto, o árabe Simão e eu decidimos nos mudar para Jaén, no sul da Espanha, onde passamos a cultivar as azeitonas picual, próprias para temperos especiais e para produzir um azeite extra-virgem puríssimo, que fornecíamos ao Botín, como seus primeiros fornecedores. Fazíamos nossa entrega aos sábados, quando já ficávamos para saborear um Cochinillo al horno, acompanhado pelo excelente Viña Ardanza, até a hora de iniciarmos a cantoria do trio. Nestas noites alegres sempre aparecia por lá um tal de Ballesteros, espanhol amigo dele, cantador e recitador de primeira, que se juntava a nós para transformar o trio num quarteto afinadíssimo.
Eram noites quase medievais, inesquecíveis.
 .

Em BH, 21/04/2011 – Este texto foi inspirado numa matéria que o Zancar me mandou de San Diego/CA, sobre o primeiro restaurante do mundo, o Botín de Madrid. A leitura e as imagens me deixaram com a impressão de que eu e meus amigos tinhamos mesmo vivido naquela época e resolvi contar a minha suposta aventura.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A MENOS ESCANGAIADA

A MENOS ESCANGAIADA
O Sêo Joaquim era o vendedor de frutas e legumes do bairro, e minha avó Augusta, mãe da mamãe, era sua amiga e freguesa semanal. Morávamos com ela, a Lúcia e eu, na Rua Bernardo Guimarães, 305, no Funcionários, em Belo Horizonte, a capital de Minas Gerais.
O ano era 1947, quando papai e mamãe foram morar nos Estados Unidos e nós ficamos hospedados com ela, onde também moravam nossos tios José e Tonico, ambos solteirões, e o primo Milton, que era piloto.
A vida era muito simples lá, quase interiorana. De uniforme azul marinho e branco, eu de calças curtas e a Lúcia de saia plissada, com o nome da Escola bordado no bolso de nossas blusas brancas, frequentávamos o Grupo Escolar Barão do Rio Branco, na Avenida Paraúna, hoje Avenida Getúlio Vargas, aonde íamos e voltávamos a pé. Os dois de mãos dadas, carregando nossas pastinhas de estudo. Não se usavam mochilas na época, só umas pastas pretas de couro legítimo, das que duravam a vida toda. Aquelas nossas, talvez, ainda estejam por aí.
Belo Horizonte era uma roça grande e boa, com ruas calçadas de paralelepípedos, passeios de pedra cortada, postes de ferro no meio das ruas e algumas poucas linhas de bonde: Floresta, Serra, Cruzeiro e Cachoeirinha, esta que era o fim da linha naquele sentido norte. Ainda não havia a Lagoa da Pampulha nem mais nada naquela região a não ser um aeroporto pequeno e precário, que recebia aviões que voavam pelo Brasil, das companhias aéreas, Panair do Brasil e Nacional Aerovias. Do final da linha do bonde até o aeroporto havia uma estrada, que hoje se chama Avenida Antônio Carlos.
Meu primo Milton era comandante da Nacional e o meu herói. Na minha visão infantil, ele era o homem mais feliz do mundo, pois viajava o ano inteiro e por todo o país. A cada viagem, ele trazia uma lembrancinha para nós. Um arco e flecha legítimos dos índios Bororós, umas cerâmicas rústicas de Belém para a vovó, rendas e toalhas cearenses e muitas, muitas histórias fascinantes dos seus voos. Da Bahia ele trouxe, inclusive, um mico-estrela, que apelidamos de Bobina.
Na nossa vidinha modesta, sonhávamos sempre, a Lúcia e eu, em conhecer o mundo, conhecer pessoas, falar muitas línguas, viajar por aí sem destino e sempre livres. Nosso lema de crianças era “vamos viver soltos e livres”, só isto. Ela me falava sempre: “Maninho, nós ainda vamos conhecer o mundo, você vai ver”. Ainda muito novinhos e com os nossos pais morando num outro país, era uma condição muito avançada para a vidinha mineira, nos anos 1940.
Papai era professor-assistente de Microbiologia da Universidade de Arkansas, em Little Rock, a capital daquele Estado, e a mamãe ao seu lado, como companheira e protetora inseparável. Nossos primos e amiguinhos sempre perguntavam: “Seus pais moram aonde mesmo? É muito longe? Como se chega lá?” E nós contávamos, orgulhosos, que tinha que pegar um navio ou um avião e atravessar o Oceano Atlântico. Nossa, era longe demais, sabíamos! Isto por que, nenhum dos meus tios nunca havia saído de Belo Horizonte, a não ser o tio Hermeto, o Soné, que havia se mudado para Pium-í, cidadezinha do interior de Minas, para tentar começar a vida lá, como advogado principiante. Não era à toa que eles achavam que o papai era um louco, um aventureiro,  e, talvez, até no conceito deles, um irresponsável. Pura falta de visão!
Naquela vidinha simples, comendo frutas no pé, almoçando galinhas e frangos do próprio quintal e jantando sopinhas de cará e canjas, que a Maria preparava, nós passamos uma infância feliz e sonhadora.
Lembro-me que o Sêo Joaquim, o verdureiro, subia a rua toda quarta-feira, puxando uma mula com dois balaios cheios de espinafres, tomates, cenouras e batatas-doce, mandiocas, alfaces, salsinhas e cebolinhas e ia anunciando, em altos brados, os produtos disponíveis para que os interessados corressem até o portão, para escolher suas preferidas.
E a vovó, num daqueles dias, me pediu: “Bebeto, corre lá e pede ao Sêo Joaquim pra parar aqui em casa que eu quero comprar umas coisas.” Corri até a rua e falei com ele, que ficou esperando no portão. Ele era uma figura estranha, maltrapilho, descalço, sujo mesmo. Quando a vovó chegou, muito delicada, cumprimentou: “Bom-dia, Sêo Joaquim, tudo bem com o senhor? E como vai a sua esposa?”
Ele coçou a nuca, abriu a boca torta - ele havia sofrido um derrame, onde apareciam só dois dentes amarelos e quebrados, e falou: “Ela tá boa, dona Augusta, e num tá tão escangaiada feito  a senhora...”
Vovó sorriu e começou a escolher os legumes e folhas.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

BAILES DE FORMATURA - Good times

No ano de 1958, em São Paulo, descobrimos a melhor escola de dança grátis. Bem, não tão grátis assim, porque custavam as cervejas que tomávamos, as meias-solas dos nossos sapatos sociais porque, geralmente, íamos e voltávamos à pé, na madrugada paulistana. Eram os bailes de formatura dos inúmeros colégios e faculdades da cidade. As principais e mais chiques, eram promovidas em dois espaços: no salão do Aeroporto de Congonhas, novinho, e no tradicional Clube Homs, na Avenida Paulista. Essas festas eram memoráveis. Eu vestia um smoking surrado do papai, que tinha sido do meu avô, e a Lúcia um vestidinho de tule que a mamãe ajeitava para ela, mudando os modelitos para cada festa. E, assim, comparecíamos a todas as formaturas. Convidados ou não. Penetramos em diversas. Nas mais arriscadas a Lúcia não ia. Por exemplo, no Aeroporto de Congonhas, que tinha um belo salão de festas, tínhamos que pular de uma ponta do terraço/observatório para a outra ponta, que era o terraço do salão. Uma acrobacia muito difícil, pois se errássemos o golpe, íamos nos estatelar lá embaixo no passeio. Com todo o risco, o Mando, o Renato Magro e eu, comparecemos a muitas e dançamos demais. Renato e eu dançávamos bem. O Mando, mais ou menos. Lúcia e eu sempre vivemos com a música na cabeça e, como temos bons ouvidos, o bom ritmo era consequência. No entanto, eu era muito inibido. Para tirar uma menina para dançar tinha que beber todas e, quando criava coragem as pernas já estavam trançando e a dança ficava comprometida. Mas, mesmo assim, dancei muito. O Rodouro me encorajou por diversas vezes. Lembro-me de que o ponto de partida era lá em casa, na Teodoro Sampaio. Os interessados iam chegando e apresentavam as alternativas da noite de sexta ou sábado, que eram os dias escolhidos para as festas.
Quando tínhamos convites, às vezes apenas um, não tínhamos dúvida de que seria a festa escolhida, mas, sem convite decidíamos pela que achávamos melhor, mais society, etc. Numa das melhores, me lembro, o Renato passou lá em casa, agitadíssimo, com uma novidade. Disse que a moda agora, era tomar “bolinha”. Perguntei o que era aquilo e ele me explicou que eram uns comprimidinhos de Pervitin, que eram vendidos livremente nas farmácias e davam uma doideira danada, se tomados junto com qualquer bebida alcoólica. Topamos experimentar. Compramos duas latinhas numa farmácia do Largo do Arouche e fomos à pé numa festa no Clube Pinheiros. Longe demais. Atravessamos a cidade, literalmente. As bolinhas davam um ânimo que, se a festa de formatura fosse na Lua, topávamos na hora. Já na festa, tomamos algumas cervejas e o efeito foi formidável. Viramos os mais lindos, corajosos e melhores bailarinos do lugar. Ficamos na festa até o último convidado ir embora e, de lá, fomos tomar alguns chopes no Flamingo, na rua Augusta. Imaginem, às 8 da manhã, sentados de smoking no Flamingo com os olhos arregalados e falando sem parar...Ficamos por lá até as duas da tarde e fomos ao cinema, no Cine Picolino, para um filme que, para nós, não tinha o menor sentido. Ô juventude transviada...
RHB – fevereiro/2011