sábado, 31 de março de 2012

EXAMES DE LABORATÓRIO

Depois de uma noite regada a muita cerveja, pouco sono e jejum de doze horas, me mandei para o Laboratório Hermes Pardini para exames de praxe. Depois dos 35, toda hora, os médicos ficam inventando que a gente tem que fazer isto ou aquilo, só para controle. Ora, nunca estive descontrolado!
Assim, meio tresnoitado, pois havia aberto os olhos às cinco horas para o treino classificatório da Fórmula Um, vesti uma roupinha e fui fazer os exames.
Tenho horror de me encontrar com algum conhecido, pois, em jejum e sem escovar os dentes, nosso hálito fica uma tragédia. Prefiro entrar, sorrateiro, me assentar num cantinho, às vezes, até com um boné ou chapéu, óculos escuros, roupa de mendigo, barba mal feita e silêncio total. Não olho nem para os lados. Mas, hoje, embora totalmente disfarçado, fui reconhecido por uma menininha loura, olhos azuis, onze meses, que a mãe trazia no carrinho, enquanto aguardava sua vez. O bebê encantou-se comigo. Deve ter imaginado um ser de outro planeta, pois sorria, abria os bracinhos. A mãe, atenciosa, murmurava: Ela está querendo brincar com o moço. Os cabelos brancos estavam escondidos debaixo do boné. Toda sorridente, a menininha agitava os bracinhos abertos como se estivesse me chamando. A mãe não teve dúvidas, me entregou a garotinha.
Como sou muito “jeitoso” com crianças acabo parecendo um robô/autômato. Não sei carregar, fazer carinho, nada. Sou igual ao papai, que só coçava a moleira das crianças com um dedo esticado, como se estivesse com medo de ser infectado por alguma bactéria. É falta de jeito mesmo!
Segurei a menininha, toda torcida no meu colo, e devia estar com uma cara de poucos amigos, pois a mãe logo falou, com aquele hálito característico: Vem cá, meu bem, o moço não está querendo brincar com você, não. Concordei com a cabeça e entreguei o abacaxizinho para a mãe. Uma gracinha, mas longe de mim.
Contei este caso para o Zuza que me chamou de burro: “Você devia ter dito que está pesquisando uma doença infecto-contagiosa e ela sumiria com a menina do seu lado.” E ele tinha razão!
Voltei à minha taciturnice, quando entra um conhecido. Havia trabalhado comigo na Selt, há uns vinte anos. Cocei a barba fechando mais ainda o ângulo de visão do meu rosto, totalmente disfarçado com os óculos e o boné, abaixando a aba. Não durou muito meu disfarce, pois minha senha foi chamada - senha preferencial sai rápido -, e tive de me levantar para ir ao balcão. Passei pelo conhecido, olhando para a parede, mas, quando me postei na frente do caixa, ele me reconheceu. Levantou-se como um bólido e veio todo feliz me cumprimentar. Oi Roberto, que prazer em vê-lo, há quantos anos, você mora em Belo Horizonte? Já é avô? Como vai sua mulher? E os seus meninos, estão bem? Já casaram? E você, já se aposentou? Ainda está trabalhando? Puxa, como você está bem, tem viajado? Tá escrevendo muito? E o violão? Muita música nova? Tá casado ainda? Quantos netos? Ainda mora na Raja? E os carros, algum modelo antigo? Vendeu as Mercedes? E o MG, ainda está aquela jóia? Você elegante como sempre, heim? Não perde a classe mesmo? Me desculpe mas você está com quantos anos? Puxa como você está conservado! Você não muda nada... E tudo isto com aquele mau-hálito terrível.
Falei: Pois é, me desculpe, mas tenho que despachar ali no balcão. Está tudo bem, obrigado. Ciao!.
Sacrifício igual, só no próximo controle de praxe. Argh!
Belo Horizonte, março/2012


FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS

“A burrice é contagiosa; o talento não.”
Agripino Grieco

sábado, 24 de março de 2012

UM VIVA AO OUTONO!

Neste mês, começa o Outono, no Brasil. Para o meu gosto, a melhor das estações, seja onde for, em qualquer lugar do planeta, a não ser nos polos, onde só tem uma estação.
O meu gosto está relacionado com os dias de céu extremamente azul e noites estreladas como as do Van Gogh. Já escrevi sobre essas stary nights, quando uma vez, na Dominica, no outono, fiquei encantado pela Via Láctea e cantei a noite inteira.
O Verão brasileiro, por exemplo, é um forno, a Primavera chuvosa, o Inverno é razoável, no entanto, por onde tenho andado, tenho vivido frios e calores insuportáveis. Na Suécia certa feita, fazia 25 graus abaixo de zero e, de outra, suportei 28 negativos, no pior frio que já sofri na minha vida. Foi na cidade de Putney, no sul do estado do Vermont, nos Estados Unidos. Em pleno janeiro, fomos convidados - um grupo de 12 bolsistas brasileiros do programa Experiment in International Living -, para uma temporada de apresentações sobre nosso país, naquela estação de inverno. Os representantes dos oito países que excursionavam pela América do Norte - Brasil, França, Alemanha, Japão, Itália, Noruega e os Congos, belga e francês -, deveriam mostrar, num tempo de duas horas, suas respectivas peculiaridades; entre outras, raça predominante, língua, cultura musical, clima, culinária, com o objetivo de uma futura troca de bolsistas. A parte musical ficou a meu encargo, portanto, cantei mais de duas horas naquele gelo. Foi uma barra pesada encarar aquele frio, que só consegui vencer com uma garrafinha de Jack Daniels, pendurada ao pescoço.  Mesmo assim, a experiência foi formidável. O nosso grupo era formado por seis estudantes do Itamarati, da carreira diplomática, mais um médico, um dentista, um advogado - que era eu -, um farmacêutico e uma formanda em Educação Física. Este grupo havia sido selecionado em Campinas/SP, numa prova final, depois de uma seleção entre mais de 500 candidatos/estudantes/brasileiros, matriculados no último ano de suas faculdades. E Ribeirão Preto, onde eu morava, conseguiu emplacar três.  O Manoel, o Ronaldo e eu.
De outra feita, em New York, sofri o maior calor da minha vida, 42 graus positivos, numa cidade fechada debaixo daqueles prédios antigos e sombrios. Enquanto caminhava naquele forno novaiorquino, ficava lembrando das nossas férias em Cabo Frio e no Rio que, com temperaturas semelhantes, enfrentávamos de sunga à beira da praia, com muita cerveja gelada e uns camarõezinhos empanados. Ô dureza!
Já a Primavera, em Paris e em Washington é linda! Na capital francesa, as Tulherias florescem em todos os tons, os gramados do Campo de Marte ficam verdejantes e a cidade, como um todo, torna-se um jardim bem cuidado. Uma maravilha! Em Washington, as cerejeiras presenteadas pelo governo japonês no século passado ficam exuberantes na estação das flores. Verde dos gramados e rosa das cerejeiras, um cenário deslumbrante!
No entanto, do Outono só tenho boas lembranças de todos os países por onde andei. Há pouco tempo, em Washington mesmo, estávamos participando de um workshop em desenvolvimento internacional, num belíssimo centro de convenções e fomos passear no espetacular Smithonian Institution onde, num quadrilátero estão a Casa Branca, o Capitólio, os Memoriais de Jefferson e Lincoln, tendo ao centro o Washington Memorial - aquele obelisco de onde se vê, lá de cima, toda a cidade, a praça maravilhosa e as cerejeiras rosas sobre o gramado verdinho e bem cuidado. Nas laterais das construções greco-romanas, estão localizadas a National Library, o Man & Space Museum e a National Galery, entre outros tantos centros culturais e museológicos. É como a nossa não menos espetacular Praça da Liberdade, também com suas atrações culturais, que só perde em tamanho para o Smithonian.
Nesta visita, as árvores soltavam suas folhas vermelhas, amarelas, alaranjadas e verdes, que cobriam o chão com esta fartura de tons, formando um tapete esteticamente inesquecível.
Assim, por estas e outras, posso concluir com toda certeza de que o outono é a rainha das estações, com uma temperatura amena e confortável em qualquer latitude. Mais um viva ao Outono!
Belo Horizonte, março/2012.

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS         
Eu caminho vivo no meu sonho estrelado. Vitor Hugo






sábado, 17 de março de 2012

MONTEIRO LOBATO E HOUAISS NA MIRA DOS POLITICAMENTE CORRETOS

Que tolice, inventaram o tal de “politicamente correto”! Raios, o que significa esta bobagem? Argumentam que quando alguém emprega um termo ou usa uma expressão, com a qual não concordam, ela está politicamente incorreta. Como podem esses - que se acham os donos das verdades, os sabem-de-tudo, os mais espertos do que os outros, os pseudo-sábios -, ditar regras e costumes em nome da erudição e do saber?
Que tolice, repito, como dizia o Dr. Ulysses Guimarães. Lembro-me muito daquele político, quando digo que estou repetindo alguma coisa, porque quando ele discursava, em quase todas as suas apresentações, ao final falava: “Repito”, dando a impressão de que a plateia não havia entendido e que seria necessária mais uma rodada sobre o assunto para fazê-la gravar. Ele talvez estivesse certo, pois, no momento, também estou sentindo a necessidade de sugerir que devemos todos começar a criticar  e a repetir nossas críticas sobre esses assuntos descabidos e fúteis, que aparecem por aí, para tentar tirá-los, em definitivo, do noticiário cotidiano. Como incomodam!  
Os assuntos a que me refiro versam sobre o seguinte. De uma hora para outra, no ano passado, começaram a criticar o escritor Monteiro Lobato por ter descrito como negra, a Tia Nastácia, aquela simpática cozinheira de bolinhos, personagem do livro “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Um grupo de radicais achou essa apresentação preconceituosa e portanto, “politicamente incorreta”,  levantando uma bandeira destinada a tirar dos estudos escolares o delicioso livro infantil. Ora, num país onde a história e as estatísticas mostram que a nossa raça é formada por índios – maioria -, que se misturaram com uma população colonialista européia branca, em minoria, e, ainda, se mesclaram com uma enorme população importada de negros africanos, só poderia dar nisto. Os negros que, de escravos passaram a prestar serviços mais subalternos e foram evoluindo em educação e riqueza para, hoje, viverem em pé de igualdade com todas as outras raças, oferecendo ao país seus serviços honestos e dedicados em qualquer setor de atividade. Somos todos iguais perante a lei. Ainda, naquela época do Pica-Pau Amarelo, anos 1940, os negros ainda estavam mais ligados à prestação dos serviços domésticos e o autor não fez nada demais descrevendo a Tia Nastácia como a cozinheira da casa. Não há nenhum demérito nisto, nem muito menos preconceito racial. A personagem fazia parte de uma raça que veio para o Brasil, naquela condição escravagista e venceu. Sinto essa reação dos conservadores como um preconceito ao contrário. Baseados nesta acusação ridícula, eles estão querendo tirar o Lobato das carteiras escolares, autor que alegrou, encanta e enfeitiçará todas as nossas crianças de ontem, de agora e de sempre. Como, cara pálida? Repito, como o Dr.Ulysses, que tolice!
Outro assunto que entrou na mídia, em nome dos citados “p. corretos” é que eles estão tentando sustar a circulação, ou seja, interromper ou cassar a venda do super dicionário do Antônio Houaiss, ex-membro e ex-presidente da ABL, até que retirem do verbete cigano suas versões pejorativas. Ora, os dicionaristas devem registrar a língua com toda a sua dinâmica, na sua plenitude. A língua é viva, ela evolui, e neste caminho, sofre variações em sua interpretação e leitura, mas deve ser mostrada por inteiro. Ela faz parte da história de um povo, demonstra claramente a sua variação cronológica em termos de costumes e educação. Além do mais, no caso, o sentido pejorativo não se refere a toda a raça, é lógico. É a mesma coisa que acrescentar no verbete “político”, os sinônimos tão em voga hoje de pessoa corrupta, desonesto, bandido e venal. Sabemos que não são todos, da mesma forma que os ciganos!
Os grandes dicionaristas - e todos eles são grandes -, se dispõem, depois de um trabalho longo e dedicado de uma vida inteira, a nos ajudar a ler melhor e a escrever melhor ainda. Que sorte a nossa! Somos muitos, milhares, que estamos dispostos a manter os dicionários como nossos livros de cabeceira, de consulta diária, tão úteis e insubstituíveis.
O Houaiss, entre outras definições, classifica o cigano como “aquele que tem vida incerta e errante;”, boêmio”, “vendedor ambulante de quinquilharias”, “o que serve de guia ao rebanho (diz-se de carneiro), “que ou aquele que trapaceia, velhaco”, “aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro,agiota, sovina”. É lógico que estão aí todas as variações do verbete, ditas livre e nacionalmente ao longo do aparecimento da raça. Nada contra, senão, vejamos. Num momento da minha vida, topei com uns ciganos. Quando menino, em Ijuí, no Rio Grande do Sul, morávamos numa casinha que tinha como vizinho um campo de futebol dentro de um colégio religioso. E nesse campo, uma vez por ano, acampavam os ciganos das redondezas. Eles apareciam no inverno e não tinham boa fama naquelas paragens. Lembro-me de que a mamãe, quando notava o movimento da montagem das barracas nos chamava a Lúcia e eu para advertir-nos de que os ciganos poderiam levar alguma coisa. Mamãe não falava em roubar, pois, justificava, eles viviam em dificuldade, não tinham casa nem emprego, eram nômades, criavam suas famílias com dificuldades, etc. e tal. E nós dois, sempre muito obedientes, guardávamos nossos poucos brinquedinhos: uma bola de borracha gasta, ioiôs que ela montava com botões, baralhinhos infantis desenhados à mão, também por ela, uma bicicletinha velha e um velocípede usado.
No entanto, no único dia em que não recolhi o velocípede e a bola, eles sumiram.
Então, que tolice é esta de retirar os pejorativos do Houaiss?
Belo Horizonte, março/2012.   

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las. Voltaire

sábado, 10 de março de 2012

HISTÓRIA DE BARÕES




Sobre barões, lembro-me de duas histórias ocorridas em épocas diferentes, mas que guardam muita semelhança em sua essência. A primeira tem como personagem meu avô Pedrinho, que contava a maior vantagem por ter conhecido o Barão do Rio Branco, numa festa no Automóvel Clube, onde ele compunha uma fila de inúmeros convidados. O Barão, no máximo, raspou a ponta dos dedos dele, - um cumprimento efêmero -, que se transformou numa das maiores honras que um pobre mortal nascido no Serro, poderia receber. Ele cantou e decantou essa honra durante os seus turbulentos 86 anos, grande parte dos quais trabalhou nos Correios, durante o dia, e na Imprensa Oficial, como revisor, nas madrugadas.
A segunda história refere-se a um personagem nascido em Santa Luzia, de pais dinamarqueses. Junto com a irmã, Bianca, ele morou no sítio do Zuza, tornando-se ambos fiéis guardadores da bela propriedade, no alto do bairro Bonança. A Bianca branquinha, meio aloprada e ele, pretinho. Por viver agarrado ao caseiro do sítio, o Zuza resolveu passar-lhe a guarda: “Cuide bem dele, seu Sebastião, agora ele é seu.” No ato, o Tião o batizou como Barão. E lá ele cresceu. Como todo bom dinamarquês, guardava o belo sítio com toda responsabilidade, atento a tudo e a todos. Muito educado e bem alimentado, não ficava pedindo comida, nos grandes almoços oferecidos pela Sônia e o Zuza, não latia para os visitantes e não entrava na casa nem mandado. Era um perfeito vigilante. Sisudo como o pai, John Wayne, e alegre como a mãe, Sofia. Mas, mesmo tão bem educado, sofria na mão do ex-dono, que o tratava como o cachorro do caseiro, sem qualquer privilégio.
Certa vez, nos assentamos na varanda para um vinho e uma cerveja vespertinos e o Barão se aproximou para fazer companhia, só isto. Imediatamente, o Zuza gritou: “Vai pra casa, Barão.” O coitado retirou-se, obediente, deu uma voltinha, dois passos à frente, três para trás e voltou. Despistando, catou um bichinho na grama, abanou o rabo e continuou por perto, como um bom companheiro e atento guardião do patrão. Quando o Zuza percebeu a presença dele, novamente, berrou irritado: “Some daqui, Barão, não enche o saco.” O pobre foi mais longe, deu uma volta maior, com o rabo entre as pernas, passou pelas laranjeiras e limoeiros, e reapareceu sorrateiro. Com a cara boa de quem não está fazendo nada errado, acomodou-se novamente perto do Zuza, que urrou: “Já mandei você pra casa, Barão. Suma daqui.”
Aí, vem a Sônia, toda alegre, contar as novidades do fim de semana: “Hoje, Zuza, aproveitei pra mandar vacinar todos os cachorros com aquela vacina que havíamos comprado, lá no Detinho. Foi a conta certa; deu para vacinar todos.” O Zuza levantou o olhar do jornal e perguntou com cara de espanto: “E quem pagou a vacina do Barão?”

Santa Luzia, abril de 1995.

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
Engano pensar que o que mais dói é o que nos incomoda. O que mais dói é o que desejamos. O desejo é uma dor sem pouso. Carpinejar

sábado, 3 de março de 2012

NOSTALGIA LONDRINA

                                                     Trafalgar Square
A viagem durou mais de doze horas, no velho BAC One Eleven, da British Caledonian, onde os cariocas do grupo, sempre muito animados, aprontaram uma batucada a bordo, batendo nas laterais do avião com tanto ímpeto que a educadíssima comissária de bordo irlandesa teve que intervir em nome do comandante: The noise is so loud that the Comander is affraid to loose the airplane control. I beg your pardom, please stop.
Mais deslumbrado do que todos, ao descermos em Londres, fui logo beijando a pista do Aeroporto de Gatewick, numa demonstração de total apreço à ilha britânica. O Papa João Paulo II plagiaria o meu ato muitos anos depois.
Após os beijos aeroportuários, fomos de ônibus para o Hotel Kensington Palace, na rua de mesmo nome, em frente ao Hide Park. Nossa ansiedade era tanta que largamos as bagagens nos quartos sem desfazê-las e saímos direto. Queríamos ver tudo, conhecer tudo logo. Ali mesmo, no Hide Park, nos deparamos com um falador, em pé sobre um caixotinho, pregando alguma coisa sobre a Bíblia. Eles se revezam no caixote o dia todo e sempre encontram alguma plateia. Os ingleses chamam este lugar onde eles se apresentam de speakers corner. Achava que isto só acontecia por lá, mas, confirmei que no mundo inteiro existem esses discurseiros, tentando carrear adeptos para alguma religião, uma seita ou mesmo uma facção mais radical. Em São Francisco/CA, são diversos; em New York, nem se fala, e até em Belo Horizonte, passeando uma vez com os meninos, no Parque Municipal, dei de cara com um que ainda, com a maior cara de pau, chamava um lambe-lambe para fotografar o reduzido grupo disposto a ouvi-lo. Devia ser para comprovar para a seita, o seu trabalho do dia. 
Voltando ao primeiro passeio em Londres, chegamos à Kings Road e fomos até o centro nevrálgico da cidade, down town, entrando em quase todas as lojinhas e lojonas, a maioria com produtos indianos ou brechós sofisticados. Numa das lojas da Trafalgar Square - lembrou-me a Sônia -, fiquei louco pra comprar uma gaiola antiga, lindíssima, enorme. Coisa de doido, mesmo. Imagine chegar ao Brasil com uma gaiola de 1,80 m de altura por 1,00 de diâmetro, de madeira entalhada. Só se eu viajasse dentro dela!  
E Londres é ótima. Ninguém presta atenção em ninguém, você anda pelas ruas como se fosse mais um pau de vassoura, dentre todos os que por ali trafegam, ou seja, o povo não é acolhedor, mas a cidade é, talvez pelo fog tradicional e constante que mantém os estrangeiros abraçados como se presos por um grande abraço familiar. Adoramos a cidade.
Numa das noites, o Ronald convidou-nos para uma Jam Session, no Ronnie Scott`s Club, no Soho, famosa casa de jazz inglesa, e lá resolveu fazer uma brincadeira comigo. Nos tira-gostos, com muito Scotch Whisky, sugeriu que eu experimentasse uma mostarda, segundo ele bem levinha que, passada  no pão francês, ficaria sensacional para acompanhar os drinques. “Roberto, pode colocar à vontade que ela é bem fraquinha”- disse ele. E eu abusei, pois adoro mostarda. Era a famosa Colman’s, em creme, um verdadeiro fogo aceso na boca. Comecei a falar com labaredas saindo pra todo lado mas adorei a brincadeira, pois adotei a mostarda como um dos meus apetizers preferidos. Fortíssima e deliciosa.
Andamos, ainda, à cata de um long-play do Nilsson que o Márcio havia comprado no Brasil e eu estava babando de inveja, chamado Aerial Ballet. Encontramos um último exemplar numa lojinha, também no Soho.
Mais uma boa recordação londrina foi o show da Dionne Warwick, no Royal Albert Hall, numa noite gelada. Fomos a pé, congelando, e voltamos num black cab típico.
Estou decidido a ir escrevendo sobre estas memórias viajeiras, homeopáticamente. Assim, vou apresentando minhas versões que ficarão abertas para as outras dos leitores, principalmente dos que participaram dessas viagens aventureiras. É como disse a Maria Ida, cada um tem uma versão sobre as viagens que faz. E é verdade. Mesmo junto e em turma, cada um tem uma maneira de ver as coisas. Creio que o grupo dessa viagem a Londres é o mesmo da crônica “Paris e os pontos cegos”, postada há uns dias, mas posso estar misturando com uma outra que fizemos uns tempos depois. Na verdade, só fui a Londres duas vezes e posso estar misturando as histórias. Please forgive me if I´m mixing.
Próximo capítulo: nosso passeio a Stratford Upon Avon, terra de Shakespeare e Windsor, uma lindíssima vila tombada pelo Patrimônio Mundial.
O Frederico, meu assistente para assuntos bloguistas, informou que o item Comentários está aberto aos leitores e sugere que o comentarista assine sua fala para que todos compartilhem. Por favor, façam seus comentários. Precisamos animar a leitura do blog. Avanti bersaglieri!

Belo Horizonte, fevereiro/2012.


FRASES,PENSAMENTOS E AFORISMOS
“Se um dia você tiver que escolher entre o mundo e o amor, lembre-se: Se escolher o mundo, ficará sem amor, mas se escolher o amor, com ele conquistará o mundo.” Albert Einstein