terça-feira, 21 de agosto de 2012




                       Os únicos que não exibiram as barrigas proeminentes foram as meninas e o Ná.
                                                 BOAS LEMBRANÇAS NO BUGRE.
A semana passada poderia ter sido como qualquer outra, mas, com dedicação, carinho e muita vontade,  tornou-se uma das mais felizes da minha existência.
Convidado pelo Ronald para ir a São Paulo a fim de atender a um cliente dele, a Gulfstream, maior fabricante de aviões executivos do mundo, embarcamos às 10:30 em Confins, para uma visita à 2012 LABACE, 9th Annual Latin American Business Aviation Conference & Exibition. Para mim, uma experiência extraordinária, pois, como sou aficcionado por aviões, lá estavam expostas setenta joias, entre aviões e helicópteros. Uma exuberância aérea!
Hospedamo-nos no IBIS Aeroporto de Congonhas, a cem metros da super feira. Da
janela do quarto assistimos ao pouso e à decolagem de diversos aviões, como numa outra época, em Amsterdam, na Holanda, em que fiquei hospedado num hotel ao lado do imenso aeroporto de Scchipol, e pela primeira vez vi um Jumbo 747. Para quem gosta, esta visão é fenomenal. Um avião atrás do outro chegando ou partindo, como na música do Fernando Brant, chegadas e partidas, são dois pontos da mesma viagem. O trem que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro e também despedida...
E com aquela visão, fiquei contando os minutos para reencontrar os meus queridos amigos da turma da Arruda Alvim, hoje uma rua fria, sem casas, cujo único prédio é o Ed. São Miguel Arcanjo, onde morei por dez anos.
Quem iria? Quantos seriam? Será que todos foram avisados? O sonho foi-se transformando em realidade quando tomei um táxi com o Ronald e o filho dele, o Renato, exímio conhecedor de ruas, nomes e trajetos daquela super metrópole. Aportamos o táxi no restaurante “A Caverna do Bugre”, na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, lugar de incontáveis encontros e confidências, na gloriosa década de 1950.
A Marília, casada com o Zezé, foi a eficiente e dedicada coordenadora desse encontro feliz, reservando mesa com doze lugares para acomodar uma turma de velhos amigos, na mais perfeita acepção do termo já que o mais novo, o Ruy, está beirando os 66, com barba e cabelos brancos. Quando chegou, logo perguntaram: Quem é este, Maninho, duvido que você saiba? Respondi pronta e seguramente: Este senhor é o Ruy Mendes de Freitas. Naquela década, ele ainda usava calças curtas, mas estava sempre por perto, curioso com os nossos programas e soube até que, já adulto e muito bonito, havia namorado com a não menos maravilhosa Maysa Matarazzo, entre outras. Será?
O irmão dele, o Robertão, chegou um pouco depois com a esposa Sandra. Cumprimentei com muita alegria o Desembargador aposentado e, naquele momento, lembrei-me de que, na nossa juventude frenética tivemos uma briga ferrenha quando ele me ameaçou com uma corrente de bicicleta na garagem da casa dele. Ele avançou para me bater, mas não acertou, pois me desviei e ele deu uma correntada no carro xodó do pai dele, um Rover verde escuro, novinho. Apertados pelo estrago, esquecemos as nossas desavenças e nos empenhamos em corrigir o arranhão que marcou um dos paralamas do Rover, com o Ruysinho ajudando, claro. Bobagens, simples briguinhas de irmãos.
Não os via há mais de cinquenta anos, bem como o Jalil, meu colega de sala no Ginásio Castro Alves, e companheiro do time de basquete da escola. Formamos, junto com o Pique, morto prematuramente, o ala Cláudio e o Pega Balão, como pivô, um dos melhores times da escola. O apelido do pivô justificava a posição. Eu era reserva do Aquiles, jogador baixo, mas muito veloz nas retomadas da bola.
Naquele momento, lembrei-me das barraquinhas juninas montadas em frente à Paróquia do Cristo Redentor, que ia da Cardeal Arcoverde até a Teodoro, onde tomávamos vinho quente e comíamos batata doce e pipoca, paquerando as mocinhas graciosas do bairro. Curiosamente, achei que o Jalil havia encolhido ou eu havia crescido, pois, hoje, estamos do mesmo tamanho e eu sempre tive a impressão de que ele era bem mais alto do que eu.
Apareceu também para o nosso encontro a suave Ana Lúcia, irmã do Maurício Gama,  soldadinho do serviço militar, que descia do bonde na Teodoro e atravessava a Arruda Alvim até a Av. Dr. Arnaldo, onde moravam. Ela nos revelou que o Maurício era muito ciumento, não permitindo que ela aparecesse nas nossas reuniões onde havia muito violão, cantoria, e nada mais. Eu nunca desconfiei disto. 
O Ná e o Zezé lembraram-me de quando, no quintal da casa deles fazíamos halterofilismo para exibir nossos bícepes, nas tardes de domingo na Rua Augusta, espremidos nas janelas do Volkswagen preto, 1955, alemão legítimo. Pintamos os cubos das rodas de vermelho para personalizar o carro e rodávamos por toda São Paulo até que, numa tarde de muita garoa, descíamos a Via Anchieta para um fim de semana em Santos quando o Zezé alertou o pai dele ao volante: Pai, cuidado, porque o trânsito está parado. Apesar do Dr. Renato ser um bom piloto, com o chão molhado não conseguiu desviar e batemos na traseira de um ônibus. Desapontados, demos meia volta para São Paulo, o Ná e eu tristíssimos no banco de trás.
Apareceu no Bugre, também, o Geninho, com quem não me encontrava há muitos anos. Depois de muitos filés à parmegiana, litros de cerveja e tira-gostos deliciosos, aceitamos uma carona para o hotel, mas o carro dele havia ficado trancado no estacionamento que fechava à meia-noite e já passava de uma hora. Como retribuição à gentileza frustrada, oferecemos uma carona no nosso táxi e o deixamos em casa, bem próxima de Congonhas.
Quero registrar que a felicidade desses encontros é tão grande que tomo a liberdade de sugerir que aconteçam com mais frequência. Por exemplo, se organizarem um churrasco num fim-de-semana, passo a mão no violão, meu companheiro inseparável, e me mando para São Paulo. É claro que isto poderia ser feito aqui também, mas acho que BH não tem o clima para uma reunião tão saudosista. E tenho certeza de que a Lúcia também irá “aparecer” para uns goles!
Belo Horizonte, 19/08/2012.

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
“Somos donos de nossos atos, mas não donos de nossos sentimentos; Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos; Podemos prometer atos, mas não podemos prometer sentimentos... Atos são pássaros engaiolados, sentimentos são pássaros em vôo.” Mario Quintana

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

UM CAIPIRA EM JUIZ DE FORA

Nos últimos cinquenta anos, em nossa rota para o Rio de Janeiro, Juiz de Fora sempre esteve no caminho. Nós, viajantes, passávamos pelo centro da cidade, quando ainda não havia um anel rodoviário de contorno. Assim, habituées de férias no Rio e adjacências vimos acompanhando o crescimento da cidade durante este meio século de viagens.
E a cidade cresceu muito. A “Manchester Mineira” é hoje uma metrópole com mais de 400 mil habitantes, com vida bastante agitada, comercial e socialmente. É um espanto!
Na segunda-feira, numa rápida estada para a 29ª Expomaq, evento promovido pela Epamig, através do Instituto de Laticínios Cândido Tostes, hospedei-me no Real Palace Hotel, nome pomposo para uma hospedagem muito precária, em plena Av. Rio Branco, a principal da cidade. No Brasil, é incrível como os serviços públicos e privados não acompanham o desenvolvimento das cidades.
Isto não acontece nos Estados Unidos. Venho hospedando-me no Brown Palace Hotel, em Denver, no Colorado, há mais de trinta anos e, em cada nova visita, um melhoramento qualquer registra uma atualização constante dos equipamentos e dos serviços, sem aumentar um centavo no custo da hospedagem, ou seja, room single = US$ 90.
Naquele dia, em Juiz de Fora - e com algum tempo para comparecer à abertura da exposição -, resolvi comprar um blazer, uma camisa de colarinho e uma gravata para comparecer a caráter, pois não havia sido avisado do protocolo para a solenidade. Na recepção do hotel, me indicaram um Shopping Center, distante  um quarteirão. Segui pela própria rua do hotel e me deparei com a entrada dos fundos do Vila Rica Shopping. Aqui, vale uma observação. Por dentro, todos os shoppings são iguais no mundo inteiro: vitrines feéricamente iluminadas, corredores abarrotados de gente por todos os andares, áreas de alimentação cheias, as mesmas lojas de marca espalhadas por todo lado, enfim, tudo igual em “Oropa, França e Bahia”.
Meti-me pelos corredores como qualquer comprador e fui naquele pra frente e pra trás, sobe e desce, até encontrar uma loja com as roupas que buscava. Encontrei uma e experimentei alguns paletós, até bonitos, de veludo, camurça e tweed, bem apropriados para o frio local, em torno de 8ºC, mas não consegui nada para o meu manequim. Assim, desisti da compra, pois o adiantado da hora já me preocupava para chegar a tempo na solenidade.
Na primeira saída, pus a cara na rua fria e não reconheci nada. Não havia marcado nenhuma referência do nome da rua por onde havia entrado, nem me lembrava de qualquer loja ou algum sinal que tivesse chamado minha atenção no caminho de vinda.  Entrei novamente no Shopping e busquei outra saída. A mesma coisa. Não era a porta por onde eu havia entrado nem reconhecia qualquer coisa mais familiar. Mais uma vez, fui buscar a próxima saída, com a esperança de ser a tal da minha chegada e, dali, correria para o hotel, pois já estava apertando a hora da abertura da feira. Nada de novo. Era tudo diferente do que tinha visto, e aí, pensei, tenho de reconhecer que estou bancando o caipira mesmo, perdido aqui em Juiz de Fora. Fiquei envergonhado comigo mesmo, pois nunca havia acontecido de me perder em Londres, em Nova Iorque ou em Paris, só mesmo havia cometido um pequeno erro de direção no metrô em Atenas, na Grécia. Nada demais!
E agora, que vexame, um filho da terra, mineirão de Belo Horizonte, perdido num shopping em Juiz de Fora... Que horror! Mas, não esmoreci. Busquei a primeira porta disponível, achei um táxi, e informei ao motorista: “Senhor, estou totalmente perdido e preciso chegar ao Real Palace Hotel bem rápido. Pode me levar?” Ele sorriu e disse, apontando: “Posso levá-lo, sim, com muito prazer, mas se o senhor seguir reto nesta rua, por um quarteirão e meio, chegará à porta do hotel que procura, em dois minutos”.
Agradeci a atenção dele, meio encabulado, tomei o rumo indicado e em dois minutos mesmo, já estava congelando debaixo do chuveiro. Que tristeza, o meu quarto no Real Palace Hotel tinha um defeito no encanamento do banheiro e a água não esquentava, nem mornava, como falam no interior. Assim, heroicamente, meti-me debaixo da ducha fria.
Juiz de Fora, 16 de julho de 2012. RHB.

FRASES. PENSAMENTOS E AFORISMOS
Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir passar o vento, vale a pena ter nascido. Fernando Pessoa
A "Manchester Mineira", de hoje.

sábado, 4 de agosto de 2012

UM FILÓSOFO PORTENHO MEQUETREFE

Num belo dia de 1965, apareceu em Ribeirão Preto um senhor que se apresentava como filósofo, nascido na Argentina e era especializado na obra de Saint Exupéry. Tratava-se de uma figura muito estranha, cabelo desgrenhado, barbudo e sem banho, que levava apenas uma sacolinha a tiracolo onde guardava todos os seus pertences: uma alpargata Roda azul  com a sola de corda bem gasta, uma troca de camisa e cueca e um gasto livro “O Pequeno Príncipe”, matéria de suas palestras.
Ele ficou zanzando meio perdido até que um estudante de medicina o encontrou e, compadecido, o recolheu numa das inúmeras repúblicas da cidade. Aquele futuro médico tratou de divulgar a permanência do visitante, dizendo que ele estaria à disposição para explicar e comentar com os interessados, a obra do escritor francês.
Logo apareceram uns candidatos à conferência, que foi marcada para a casa de uma amiga nossa, numa daquelas tardes quentes da Alta-Mogiana. O convite telefônico pedia que comparecêssemos pontualmente, pois o palestrante era muito metódico e exigente, vejam só que discrepante figura.
Chamei a Lúcia e fomos ouvi-lo. Aliás, a não ser pela pronúncia arrastada de um portunhol confuso, não apresentou nenhuma novidade quanto ao conteúdo da obra que, qualquer candidata a miss Brasil já sabia de cor e salteado, como “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” ou “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos” enfim, um Exupéry bem conhecido.
De qualquer forma, ele ganhou um lanche na casa da anfitriã que, parece, era o que queria pois não cobrava pelas palestras e fazia questão de enfatizar que estava a dois dias viajando, sem comer nada e que se sentia muito fraco. Depois de um café com leite reforçado com muitos sanduíches mistos de presunto e queijo, salsichas de lata, pasteizinhos portugueses fritos na hora pela mãe da anfitriã, a reunião descambou para uma cervejada. Em Ribeirão é inevitável, pois na terra do melhor chope do Brasil, o insuperável “chope do Pinguim”, ninguém recusa uma cerveja gelada.
E a reunião serviu, também, para uma bela rodada de violão pois, onde quer que fôssemos, a Lúcia e eu, sempre aparecia um violão e a conversa descambava para  uma cantoria sem fim.
E para não interromper o embalo, de lá, e já bem mamados, carregamos o argentino, por nossa conta, e fomos todos para a Cava do Bosque, onde havia um bar aberto no meio de um jardim botânico nos arredores da cidade que mantinha montado um pequeno palco para os interessados em fazer música ao vivo.  Era o nosso palco preferido, com os ares mais fresquinhos entre as árvores do imenso jardim que disfarçavam, um pouco, o calorão escaldante de Ribeirão.
Cheguei até a improvisar uma trilha sonora, em solo, para o portenho declamar uns trechos do Pequeno Príncipe, que renderam muitos aplausos e deram mais alguma visibilidade para a obra do piloto/autor francês.
Foi uma efeméride lítero-musical-filosófica.
BH, junho/2012

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
O verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá, mais se tem. Antoine-Jean- Baptiste-Marie-Roger-Foscolombe de Saint Exupéry
                                                    Exupéry ao lado seu avião de combate