sexta-feira, 23 de novembro de 2012


A HORA DO BRASIL
Não a conheci pessoalmente. Só de ouvir dizer. E esse ouvir dizer, veio sempre acompanhado de um caso interessante ou uma curiosidade no comportamento, ou até mesmo de uma mania, mas sempre descritos destacando uma grande clarividência e uma inteligência privilegiada. O nome dela é Nora. E é só o que sei. Ou melhor, sei também que ela tem  um irmão que ela apresentava assim:  Ele se chama Vasington,  mas eles trata ele de Uóchito.
Lembrei-me dela hoje porque – agora, com mais tempo e até por interesse - passei a ouvir a Hora do Brasil, disponibilizada obrigatoriamente em todas as rádios do país, das dezenove às vinte horas.
A Nora, segundo seu patrão, meu amigo Aloísio, ouvia religiosamente a Hora do Brasil e os horários dela eram regulados pelo instante em que o programa descrevia no momento. Por exemplo, quando ele chegava em casa e perguntava a que horas seria servido o jantar, ela respondia: Tá na hora da Praça dos Três Poder... daqui a uns quinze minutos. Portanto, ela serviria o jantar às quinze para as oito. Isto porque o locutor da HB, na metade do programa, anunciava: Diretamente da Praça dos Três Poderes...
Lembro-me de que sempre brincávamos com os amigos, lançando o convite: “Dê um pulo lá em casa pra ouvir a Hora do Brasil”. Era um convite/piada para passar uma hora chatíssima, ouvindo as notícias do que havia ocorrido no Brasil, nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, diariamente. Era o que pensávamos mesmo, até que passei a ter tempo e interesse pelo programa e me surpreendi.
Hoje, acho que todos deveríamos ouvir a Hora do Brasil. Não precisa ser um compromisso rigoroso de ouvir todo dia, não, mas, ouvir um resumo das notícias, relatando o que ocorreu nos três poderes da República. É muito instrutivo.
Por exemplo, o que o Ministério da Saúde tem feito como medidas preventivas para diversas doenças com as vacinações em massa, os diversos exames disponibilizados pelo SUS, como as sofisticadas mamografias e outros, com certeza, vem mudando a história deste país. Nos distantes rincões da pátria, lá estão médicos e enfermeiros cuidando da saúde da população. É de impressionar. Outro exemplo, o Ministério da Pesca, disponibilizando equipamento para pescadores individuais que acabam sendo responsáveis pela alimentação diária de enormes populações até então desassistidas.
E a gente só fica sabendo dessas coisas através de um noticiário sem manchetagens como assassinatos, desastres, etc. que são cobertos pelos maiores jornais impressos, rádio e televisivos do Brasil. Na verdade, só mostram as desgraças que são as responsáveis pelos maiores índices de audiência.
A Nora, com certeza, só dispunha de um pequeno rádio de pilha na cozinha para se distrair. Assim, devia acordar, ligar o radinho e só desligá-lo na hora de dormir. Ainda não é o meu caso, mas, quando chego à tarde na Toca, depois do dia trabalhado, sento-me para escrever e  ligo o rádio. Vou ouvindo músicas e entra no horário da HB. Antes, desligava-o logo e colocava um cd, mas, tendo ouvido uma vez por acaso, gostei e agora acompanho o noticiário até o fim.
Aliás, com a Nora não só aprendi a ouvir a Hora do Brasil, como também a ser objetivo e curto nas minhas respostas, sem a genialidade dela que, certa vez, perguntada sobre o que havia feito para o almoço, respondeu ao patrão: As pena tá no lixo. Deve ter sido um franguinho e tanto, pois além de inteligente, ela era ótima cozinheira.
Belo Horizonte, novembro de 2012.


FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
"Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem."
Millôr Fernandes




sábado, 17 de novembro de 2012


O CISNE BRANCO
Nessas manhãs de sábado, pré-almoço na casa da Sônia/Zuza, acontecem coisas inesperadas. Aboletados na varandona -  cervejas e vinhos à vontade -, nossa conversa versa sobre temas variados: política local, brasileira e internacional, casos de família, acontecimentos da semana, antigas histórias e aventuras, comentário sobre uma leitura atual ou sobre alguma obra já lida e por aí vai. E claro, cervejas e vinhos à vontade.
E como gostamos de aviões e mais bichos e máquinas aladas, Zuza e eu ficamos sempre olhando para o céu. A visão da varanda é magnífica, de 360 graus e por lá ficamos até tarde. Certa noite, por exemplo, assistimos, sem saber do que se tratava, ao acoplamento de uma nave à Estação Orbital Russa. Como vivemos buscando discos voadores, notamos uma pequena luz movimentando-se no escuro, muito rápida e com um trajeto certo, em direção a uma luz mais forte. Calados, seguimos a luzinha, que embarcou na luzona e se foram. Ficamos cabreiros com a visão sem fazer qualquer comentário. No dia seguinte, o Zuza me telefonou, dizendo que havia lido no jornal sobre o acoplamento das duas naves sobre o céu do Espírito Santo, e, pelos seus cálculos, localização exata do espetáculo a que assistimos.
Papeando  e tomando todas, vamos  apreciando os pequenos monomotores que saem para seus passeios sabáticos. Já conhecemos todos: um amarelinho às 12:15; um branco e azul e outro branco e vermelho, voando em direções opostas e nos mesmos horários. Também identificamos os diversos helicópteros: o dos Bombeiros; o da Rede Globo, o famoso Globocopter; o da Polícia Militar, alguns particulares e o de aluguel do Restaurante Raja Grill.
Observamos que, hoje em dia, a movimentação aérea sobre a cidade é mais leve. Há alguns anos, quando os aviões de carreira cortavam Belo Horizonte e existia um rádio-compasso na Serra do Curral, sabíamos de todas as suas origens e destinos: Rio, São Paulo, Vitória, Miami  ou o interior do estado.  E, imediamente, identificávamos os tipos e modelos dos equipamentos: Boeing 727 e 737, Airbus A, Cessnas, Mitsubichis, Brasílias, Bandeirantes, Bonanzas, etc. Um divertimento para dois aficcionados por aviação. E tome vinho e cerveja.
Ontem, céu nublado cinza claro, garoa fina, vi uma enorme ave branca com uns dois metros de envergadura, voando sobre os prédios do bairro Gutierrez. Gritei: Olha Zuza, que beleza! E ficamos estupefactos até que ela sumiu atrás do prédio à nossa frente. Observando a trajetória do voo, esperamos a saída dela do outro lado do prédio. Fiquei olhando para cima e não a vi surgir do outro lado, mas o Zuza a viu, um pouco mais abaixo, voando em direção ao Rio, segundo ele.
Discutimos atordoados com a visão repentina e concluímos consensualmente que, pelo porte, pernas longas pretas e pela plumagem branca brilhante, só poderia ser um cisne desgarrado de algum lago próximo e que estava perdido procurando um pouso seguro. Que visão maravilhosa! No ato, lembramo-nos do hino da Marinha Brasileira, “O Cisne Branco”. Cantamos em uníssono e o Zuza concluiu: Isto só pode ser coisa de Deus.
Aquela figura sinistra e bela no ar, lembrou-me daquelas ilustrações dos pterodátilos voando nos céus da era pré-histórica, nos livros de história do ginásio.
E tome mais cerveja e mais vinho!
Belo Horizonte, 10 de novembro de 2012.
Para os que gostam, segue a letra do lindo Hino da Marinha Brasileira, composto por, música: 1º. Sargento (Exército) Antonio Manoel do Espírito Santo e letra: 1º. Tenente (Marinha) Francisco Dias Ribeiro

L E T R A

Qual cisne branco que em noite de lua
Vai deslizando num lago azul.
O meu navio também flutua
Nos verdes mares de Norte a Sul.

Linda galera que em noite apagada
Vai navegando num mar imenso
Nos traz saudades da terra amada
Da Pátria minha em que tanto penso.

Qual linda garça que aí vai cruzando os ares
Vai navegando 
Sob um belo céu de anil
Minha galera 
Também vai cruzando os mares
Os verdes mares, 
Os mares verdes do Brasil.

Quanta alegria nos traz a volta
À nossa Pátria do coração
Dada por finda a nossa derrota
Temos cumprido nossa missão.



FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
Já faz três dias que não falo com minha mulher.  É que não gosto
de interrompê-la.  Milton Berle (1908-2002)

sábado, 10 de novembro de 2012

OS FLAMBOYANTS DA RAJA GABAGLIA

Belo Horizonte amanheceu com uma cor insuperável, a dos flamboyants floridos deste início de Primavera. Lembro-me de que, homem crescido e vivido numa “selva de pedra”, slogan da cidade de São Paulo nos anos cinquenta, nunca havia me interessado por árvores, bichos, hortas, pomares, etc., porque, numa cidade metropolitana como aquela, nem essas palavras nem aqueles ambientes existiam ou eram acessíveis.
Numa tarde de primavera, há uns quarenta e tantos anos, na varanda da casa do Dr. Célio, comentei sobre a beleza daquela árvore no meio do jardim. Ele me explicou que era um flamboyant que florescia uma vez por ano e era sempre exuberante. Pensei, então, que por esse pouco tempo a gente teria que se encantar com toda a cidade porque a presença dessas flores a tornam maravilhosa. Os flamboyants são árvores grandes, troncos fortes e resistentes, com uma folhagem leve, filtrada e de flores brilhantes.
E hoje, na magnífica varanda da casa da Sônia/Zuza, na Raja Gabaglia, vimos a cidade flamboyanamente florida. Daquela varanda se enxerga tudo, desde o jardim do Ministério da Agricultura até a imponente Serra do Curral, sobre a qual já sugerimos uma semeação de árvores floríferas que fariam da cidade a mais linda do planeta. A Serra do Curral com flamboyants, quaresmeiras, ipês, paineiras e outras árvores típicas da flora mineira/brasileira seria uma atração turística única e um deslumbramento para nós que habitamos esta terra privilegiada.
Da varanda da minha Toca também vejo alguns flamboyants marcando a cidade, com alegria e vontade de viver.
BH, em dois de novembro de 2012, dia de finados.

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMAS
“Passou a vida inteira correndo atrás de uma idéia, mas não conseguiu alcançá-la.” Agripino  Grieco



sábado, 3 de novembro de 2012

EDGARD MELO, O PIONEIRO

Em 1968, a convite do Ronald Andrade, passei a representar, em Belo Horizonte, a Randrade Propaganda, agência com sede, até então, no Rio de Janeiro. A experiência seria fascinante, pois o negócio da publicidade em terras mineiras ainda era um tanto precário e, para mim, totalmente desconhecido, embora gostasse dos resultados apresentados em anúncios para jornal, em spots de rádio e nos comerciais para TV.
Como acontece com qualquer negócio novo, o desafio era grande, mesmo porque os anunciantes mineiros conheciam pouco sobre os trabalhos da criação publicitária e, em BH, havia só uma agência montada como tal, a ASA Publicidade. Comentavam que o nome havia sido formado pela expressão After Six Agency, cujos proprietários, Edgard Melo e Hélio Faria, só se dedicavam a ela depois de cumpridos seus expedientes em outras empresas, onde trabalhavam em tempo integral. Assim, a ASA foi, realmente, a pioneira.
Representando a Randrade, passei a atender a dois clientes locais, já prospectados pelo Ronald: a Carbel, Revendedora VW, do nosso primo Luiz Flávio Pinto Coelho, e a Josué Irffi Jóias, que vendia pedras e cristais. Para tanto, o Luiz Flávio cedeu-nos uma mesa e uma cadeira, numa das salas da Carbel, e disponibilizou um telefone. Foi como comecei minha feliz e produtiva carreira publicitária, sempre sob a orientação do grande amigo e excelente professor Ronald. E, com muito entusiasmo, comecei a captar algumas empresas para a nossa, então vazia, carteira de clientes.
No corre-corre ditado pelo novo empreendimento, certa tarde entrei no Bemge, agência Praça Sete, a fim de pagar um título em nome da Randrade e sentei-me ao lado de alguns office-boys e de um jovem senhor de terno e gravata. O caixa ia citando os títulos que chegavam para pagamento e chamando os interessados, até que chamou, simultaneamente, os representantes da ASA e da Randrade para se dirigirem aos caixas. Levantei-me e ao meu lado surgiu o Edgard Melo, que era o tal jovem senhor de terno e gravata. Apresentamo-nos e, a partir dali, criamos uma boa relação de amizade, que durou até outro dia, quando infelizmente um daqueles “boys” da fila de espera do Bemge foi chamado para o andar de cima. Que Deus abençoe o amigo Edgard.
Roberto H. Brandão - Publicitário
Belo Horizonte, 28 de junho de 2012.

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
O bom vinho não é o que os críticos e os entendidos enaltecem, nem aquele que custa os olhos da cara, nem o que todos bebem. O bom vinho é aquele de que gostamos, o que conseguimos comprar e, principalmente, o que bebemos em boa companhia! (De algum bom bebedor de vinhos, talvez do próprio Edgard mesmo)