sábado, 29 de dezembro de 2012

A LUA NO FINAL DE 2012
Só poderia perceber uma lua tão exuberante e enigmática no final deste ano, já que vivo observando-a. Não passo uma noite sem dar uma olhada furtiva pra ela. É um tipo de fascinação, uma atração. Pode até ser uma paixão incontida, arcada pela fascinante claridade e pelos diversos mistérios que ela encerra.
Noite dessas - a de Natal -, da varanda da Toca, mais uma vez estive observando a lua nova, quando enxerguei um ponto brilhante bem ao lado dela, como se fosse um avião pedindo licença para pousar, ou mesmo um satélite dela própria. Fiquei perplexo, me sentei com o copo de cerveja bem cheio ao lado e fiquei observando. Os dois, lua e ponto de luz, movimentavam-se em translação, e a misteriosa luz ia se aproximando muito devagar. Será que haviam permitido o pouso? – indaguei.
Acompanhando o mistério lunar, entre nuvens e clarões de céu, de repente, a luz desapareceu atrás da lua. Felizmente desceram – pensei - sem qualquer clarão de fogo ou fumaça, o que significava ter sido um pouso seguro. Meno male.
Imediatamente comuniquei ao Zuza por telefone, que, muito criativo e crente da existência de outros seres no espaço retrucou: É uma nave espacial imensa, aguardando a liberação para o pouso. Só pode ser. Como uma luz tão grandiosa pode surgir do nada e se aproximar da lua? São os caras querendo descer na lua, pode ter certeza.
Imediatamente ele ligou para o Caio, sugerindo que ele comunicasse ou procurasse saber na redação do jornal Estado de Minas se havia alguma notícia sobre aquele fenômeno. Nada, nenhuma notícia a respeito.
Fui dormir com aquela bela imagem na cabeça e sonhei que era eu quem estava descendo na lua de paraquedas. Havia saltado da varandinha da Toca e estava alunissando num deserto inóspito cheio de crateras. Era naquela imagem bem conhecida do solo lunar. E ali fiquei. A princípio um pouco assustado, mas, maravilhado com o sucedido, fui me acostumando e já estava até me sentindo em casa quando acordei, suando a 32º, na minha cama na Toca. Decepcionado, fui para o computador para desvendar, no “Google sabe tudo”, o mistério da noite. E lá estava a explicação: era Júpiter, o maior planeta do sistema solar.  Vejam:

"A Lua 'caminha' no céu em direção a Júpiter, como consequência de sua translação em torno da Terra, até ocultá-lo, passando em sua frente. Dependendo do local na Terra, esse fenômeno poderá durar mais de uma hora. Será bem instigante vê-lo reaparecer no bordo iluminado da Lua", explica Jair Barroso, do Observatório Nacional.

Já, na Terra, tomei mais um gole de cerveja e voltei pra cama.
Belo Horizonte, dezembro/2012.

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
Mantenha os seus olhos nas estrelas e seus pés na terra.
Theodore-Roosevelt

domingo, 23 de dezembro de 2012

O DIA DO FIM DO MUNDO
Todos nós acordamos, na manhã do dia 21 de dezembro, sentindo o fio da espada de Dâmocles no pescoço. Seria aquela manhã a última de nossas vidas? Passamos o dia olhando para o alto em busca de alguma coisa caindo: ou um planeta, um satélite, um disco-voador ou mesmo uma chuva ácida mortal.  Nada, só uma chuvinha boba no final da tarde, que não deu nem para molhar minhas plantinhas na varanda. 
No trabalho, fiquei observando a cara dos meus colegas para ver se não havia algum com as feições sendo transformadas num ser diabólico e destruidor. Também nada aconteceu. Todos continuaram com as mesmas características da personalidade de todo dia. Uns com a cara amarrada de sempre, outros desconfiados como de hábito, mais alguns, ainda, com aquela alegria descontraída de toda hora. Nada de novo no front!
Na nossa ida a Juiz de Fora, na terça-feira passada, vislumbramos até um fenômeno meteorológico diferente, que o Eurimar, também admirador de aviões, observou no céu ali pelos arredores de Barbacena: a aurora boreal tropical (V. foto acima. Desculpem a incompetência do fotógrafo e da câmera do meu celular, mas, se repararem bem, dá para notar um arco-íris horizontal numa camada de nuvens estratos). Ficamos cabreiros e paramos no acostamento para admirar a beleza matutina e surreal. O Antônio ao volante, o Cláudio de co-piloto e eu atrás com o Eurimar, fizemos algumas conjecturas sobre o dia do fim do mundo. Será que teríamos tido o privilégio de ver o começo do fim nos céus de Barbacena ou seríamos os únicos eleitos para permanecer na Terra e dar continuidade aos seres humanos? E com os bichos, como é que seria? Será que algum lobo-guará também teria enxergado o fenômeno? E os outros bichos das redondezas também teriam sido iluminados pelo feixe colorido e estariam também contaminados pelo seguimento da humanidade?
Mais tarde, num programa bastante esclarecedor na Globo News, fiquei sabendo da história analítica sobre o calendário maia. Aquele fim do mundo previsto, ou mal interpretado, dava fim a um período e começava outro quase que como no nosso calendário gregoriano. No próximo dia 31 de dezembro acaba um ano e no dia primeiro começa o outro. Simples não?
Belo Horizonte, dezembro 2012.

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
“A vida não é uma prova, um degrau, um ensaio ou um prelúdio ao paraíso.
A vida é o que há, aqui e agora, o que você precisa. Fiz você livre. Não há prêmios, castigos, pecados ou virtudes. Você é absolutamente livre para fazer da sua vida um céu ou um inferno.”
Não posso dizer o que há após a vida, posso sugerir: viva como se não o houvesse.
Como se esta fosse a única chance de gozar, amar e existir.“
Baruch Spinoza



 .


sábado, 15 de dezembro de 2012

ENCHENTES EM BELO HORIZONTE

Certa noite recebi um telefonema do Celinho, meu cunhado, pedindo para socorrê-los na Rua São Paulo com Avenida Álvares Cabral, onde o carro em que estavam ele seus pais, Dr. Célio e dona. Santa havia sido levado pela correnteza abaixo. Imediatamente me dirigi ao local, encontrando os três sob a marquise de um prédio, debaixo de um guarda-chuva preto, ensopados e tremendo de frio. De lá mesmo, desolados com a cena, víamos o Simca Presidente preto entalado numa das muretas de um córrego que corria pela Rua São Paulo. Necessitados de um bom banho quente, levei-os imediatamente de volta para casa.
No dia seguinte, o carrão foi rebocado para uma oficina, onde permaneceu durante meses. Foi necessário até abrir o motor, que estava cheio de gravetos e folhas. A correnteza enchera o bloco do motor, entre os cilindros, válvulas, juntas, com um monte de plantas, terra, raízes, provocando um odor podre no belíssimo sedan quatro portas. Impossível de ser combatido o mau-cheiro, o carro acabou sendo vendido com a podridão entranhada no seu habitáculo.
Em outro tempo, deixei meu Karman-Ghia vermelho, zero km, num estacionamento em frente ao Aeroporto da Pampulha e viajei para o Rio a fim de acompanhar a gravação de um áudio com o locutor Sérgio Chapelin, para um cliente de BH. Era somente um pernoite, pois a gravação estava reservada para um estúdio às 21 horas, depois que o locutor terminasse o Jornal Nacional da Rede Globo. Ao retornar a BH, no dia seguinte, fui direto ao estacionamento e encontrei-o vazio. Fiquei gelado. Entreguei o comprovante a um rapaz, que me contou desconsolado: “Ih, doutor, caiu uma bruta tempestade ontem à noite, e a enxurrada carregou todos os carros que estavam dormindo aqui. Tá tudo espalhado aí pela praça. Tome aqui a sua chave e vá procurá-lo, por favor.” A Praça Bagatelle estava uma desolação. Barro acumulado por todo lado e alguns carros - uns vinte talvez -, sobre os passeios, trombados em árvores e muros, enfim, um caos. De longe, enxerguei o vermelhinho todo enlameado, mas, felizmente, sem nenhum amassado, pois estava na parte aberta da praça, sobre um daqueles canteiros. Passei um mês lavando o carro todos os dias, mas, sem sucesso. Acabei vendendo o carrinho, também, com cheiro e tudo.  Uma lástima!
Belo Horizonte, dezembro/2012.

                         
FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS

O tempo que dura um minuto depende de que lado você está da porta do banheiro. Bob Hope


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

DOIS GÊNIOS
Lá se foram duas importantes personalidades da vida mundana internacional: um artista do desenho e dos projetos arquitetônicos, o grande, insuperável, Oscar Niemeyer, e o não menos artista, este, dos acordes e das melodias, Dave Brubeck.
Coincidentemente, e na mesma semana, um no Brasil e o outro nos Estados Unidos, distantes, mas, com uma ligação definitiva: o amor à vida e a dedicação à alegria e à felicidade dos seus semelhantes.
O primeiro, comunista convicto e radical, que projetou a maioria das construções públicas do Brasil e diversas mundo afora com um objetivo - exageradamente ressaltado pelos parentes e amigos, na solenidade do seu enterro - focado no conforto e na melhor qualidade de vida dos seus usuários. Ora, o arquiteto que não projetar uma casa, um apartamento, uma sala, um prédio que não pressuponham tais premissas, estará andando ao contrário da ordem natural das coisas. A maioria dos entrevistados, ao comentar a morte do mestre, procurou valorizar essa característica como a principal da obra do arquiteto. Que nada! O mestre Niemeyer inovou sim, dando às curvas uma importância maior que às retas, na sua visão de artista. Sem dúvida, ele foi o máximo ao projetar o nome do Brasil em todas as instâncias. Era um gênio mesmo.
Mutatis mutandi, expressão muito em voga hoje, com o julgamento do “mensalão”, data vênia - outra na ponta da língua de todos -, vamos ao genial Dave Brubeck.
Essa exdrúxula comparação entre os dois mestres apenas tenta mostrar como os conceitos sobre as pessoas depois de mortas ganham símbolos e características que não são o forte da sua obra.
Sobre o Brubeck, disseram ser o maior intérprete do jazz americano. Na minha opinião, ele foi, sim, um precursor ao sugerir, junto com Paul Desmond, também gênio do saxofone, o ritmo de 5/4, que veio inovar o tradicional 4/4. A música Take Five marcou o nome dos dois na rica história do ritmo americano. .
Niemeyer e Brubeck  legaram obras distintas e únicas na cultura internacional: a valorização da curva e a audácia na mudança do ritmo universal. Os dois foram gênios nas suas respectivas atividades. Tão díspares e tão próximos no engrandecimento da cultura para a humanidade.
Belo Horizonte, novembro/2012.

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
A arte deve ser mentira verdadeira, não falsa verdade.
Jean Rostand

sábado, 1 de dezembro de 2012

O CENTENÁRIO DO GONZAGÃO, O LUA

Acostumados às pensões e apartamentos apertados, no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Ijuí e São Paulo, minha irmã Lúcia e eu sempre nos surpreendíamos ao acordar numa casa grande, quando viemos morar com a vovó Augusta, em BH. E na nossa visão de criança a casa era ótima e muito grande mesmo. Cada um tinha o seu quartinho arrumado, onde ajeitávamos o uniforme do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, as enormes pastas pretas de couro, cheias de caderninhos com os para-casas, sempre corrigidos pela tia Marina e o tio Tonico. Vivíamos num ambiente agradável com galinhas no terreiro, diversas frutas no quintal e um jardim florido à frente da casa. Ô infância bendita!
Ao acordar, saíamos para o jardim para ajudar a vovó que, com um regador de lata, aguava as camélias, romãs, espadas de São Jorge, violetas e outras plantinhas inocentes que enfrentavam, sem qualquer poluição, uma vidinha pura e singela. Na vitrola do tio Zé, um único disco do Luiz Gonzaga ficava tocando a Asa branca de um lado e o Que nem jiló, do outro. Era um 78 rpm que o meu primo, o Comandante  Milton Hermeto, da Nacional Aerovias, havia trazido de uma de suas memoráveis viagens Brasil a fora.
A vitrola to tio Zé era moderníssima, rádio embaixo e, sob uma tampa, um toca-discos que reproduzia os pouquíssimos discos que havia na época. Lembro-me de que a vitrola emitia os sons através de umas agulhas de aço que, descobri, quando gastas, podiam ser substituídas por espinhos de uma das plantas do nosso jardim. E, assim, a música naquela casa era permanente, mesmo em qualquer emergência.
A Lúcia era uma graça, quando gostava de uma música a repetia sem parar. Também, naquela época era quase só o que se tinha pra cantar e, como não aguentávamos ficar calados, cantávamos todo dia, a toda hora, sem parar, a Asa Branca e o Que nem jiló.
Passaram-se os anos e o Gonzagão estaria completando cem anos, agora em 2012. No entanto, suas belíssimas canções nunca saíram do ar. O filho, apelidado Gonzaguinha, também deixou uma obra musical excelente, prematuramente interrompida.
O legado do Rei do Baião é enorme. Gravou mais de 200 discos (Lps) com umas 600 músicas, muitas delas com seu parceiro predileto, Humberto Teixeira. Em sua terra natal, Exu, no interior de Pernambuco, foi criado em volta da casa dele o Parque Asa Branca, que abriga o Museu do Gonzagão, principal atração do lugar, aonde milhares de visitantes acorrem para conhecer o gibão e o chapéu de couro, suas marcas registradas, bem como suas inúmeras sanfonas. No restaurante do Parque, os visitantes podem saborear o famoso “baião de dois” - comidinha preparada pela D. Raimunda, a cozinheira Mundica -, que ele consagrou como nome de uma de suas músicas. No quintal da casa, tem uma escola de dança com diversos alunos de todo o país, principalmente nordestinos, que querem aprender os verdadeiros passos do baião e receber lições de sanfona para, como o “Lua” dizia: “Não deixar o ronco da sanfona desaparecer.” E lá, no pé de um famoso juazeiro, que também ficou consagrado numa de suas músicas, O Pernambucano do Século, mantém a história viva para os milhões de apreciadores da grande obra musical de Luiz Gonzaga, o Gonzagão, o Lua. Um viva ao “Rei do Baião”, no seu centenário!
Belo Horizonte, novembro/2012.

FRASES, PENSAMENTOS E  AFORISMOS
O poder que têm sobre nós as pessoas que amamos é quase sempre maior que o que temos sobre nós mesmos. (La Rochefoucauld, 1613-1680)