sexta-feira, 26 de julho de 2013


NEW YORK, here I come
Em meados dos anos sessenta, resolvi passar uma temporada em New York a fim de sentir e conhecer a maior e mais movimentada cidade do mundo.
Considerando a vidinha pacata de estudante universitário em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, que queria viver tudo na vida mesmo dentro de um orçamento limitadíssimo de professor de violão, a ideia era uma loucura. Mas, não me intimidei.
Aceitei o convite de um brasileiro perdido na Big Aple, que me ofereceu um quarto mobiliado numa kitinete do Village. Reconheço que ele era mais corajoso e aventureiro do que eu, pois trabalhava como pedreiro na construção de uma ponte que ligava a ilha de Manhatan ao continente e, naquela época natalina, estava dispensado de comparecer ao serviço, pois a cidade registrava um dos piores invernos no hemisfério norte.
As temperaturas variavam entre vinte e vinte cinco graus abaixo de zero com muita chuva e neve que tornavam impossíveis as obras ao ar livre. Só de atravessar alguns pedaços abertos nas ruas já era terrível.  Vivíamos de porta em porta nos escondendo do gelado inverno. E como o meu novo amigo recebia apenas pequeno soldo para suas férias forçadas, resolvi dividir com ele alguns sanduíches, leite quente e umas cervejinhas para distrair. E assim fomos levando a vida. Eu tentava dar aulas de violão nas escolas de música - diversas no Village -, mas a bossa-nova era ainda muito insipiente nos Estados Unidos.
Havia um tal de João Gilberto fazendo apresentações aqui e ali. Muito chato, exigindo salas sem nenhum zumbido de mosca, e um outro brasileiro na costa oeste, com um trio – piano, contra-baixo e bateria – que apresentava um som novíssimo com um grupo de cantoras americanas e brasileiras. Eles acabaram gravando um LP antológico chamado Sérgio Mendes e o BRASIL 66. Uma obra que guardo até hoje na minha preciosa coleção de vinis.
Entre uma aulinha aqui, outra ali, fui ficando para trás do grupo com o qual havia partido do Brasil, para uma bolsa chamada Experiment in International Living, oferecida pelo governo americano, que pagava as passagens de ida e volta e oferecia estadia e refeições em casas particulares. O grupo prosseguiu dentro do roteiro previamente acertado, indo de New York para Virginia e West Virginia, North e South Carolina, Geórgia, Alabama e Florida, hospedados em casas de família o que, no momento, não me interessava. O que eu queria era a tal experiência de viver internacionalmente, ipsis literis, por minha conta e risco.
Fico contando das dificuldades, mas houve também muita coisa boa. Por exemplo, conheci a cidade e, principalmente o Greenwich Village, como poucos. Cheguei até a dar umas canjas nos bares de jazz mais modestos e fui me aprimorando na língua, quase como um pedinte. Alguns anos depois, sentado no banco de uma praia em Miami, sentou-se ao meu lado um senhor americano, um pouco mais velho do que eu, e começamos a conversar. De repente, ele perguntou: “Are you from New York, born there?” Ficou incrédulo quando lhe contei sobre minhas origens. Convidou-me para umas buds e encerramos o papo num bar de piratas, na orla de Miami City.
De lá para cá me encantei com a terra do Tio Sam e vivo nesse vaivém.
Mês que vem estou indo de novo.
Belo Horizonte, julho 2013.

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS

Bote fé que a vida terá novo sabor. Papa Francisco

terça-feira, 16 de julho de 2013


BOSSA NOVA NO CARIBE
De Miami a Nassau foi apenas uma hora de vôo. Desembarquei, naquela manhã chuvosa de domingo, somente com o telefone da empresa do meu amigo Peter Lesley, pois não tinha nem o telefone da casa dele. Nós, passageiros, fomos recebidos ao som da banda do Blind Blake Trio, tocando a famosa Bye, Bye Black Bird, quase um hino oficial das ilhas inglesas.
Levava comigo um violão, presente do Zuza para a Jean, esposa do Peter, que estava iniciando o aprendizado do instrumento. Os violões acústicos brasileiros já eram de ótima qualidade, mesmo os construídos em escala industrial como aquele Di Giorgio.
Telefonei para a firma do Peter que, naturalmente, estava fechada. Eles também não trabalham aos domingos. Sentei-me, então, junto ao balcão de um bar do aeroporto para tomar uma cerveja e pensar como fazer para localizar o meu amigo. Enquanto isso continuaria ouvindo as agradáveis baladas do conjunto musical local.
Ah, justamente por estar portando o violão, fui inquirido pelo fiscal da alfândega. Ele queria saber se eu era músico e, diante da minha afirmativa, pediu-me para tocar somente uma música para se certificar de que aquele era o meu instrumento de trabalho e não algum contrabando para ganhar uns trocados na ilha. Esta prática foi muito usada naquela região onde, durante séculos, aventureiros aportavam para vender alguma muamba ou fazer um negocinho ilícito. O Caribe ficou marcado com a fama de terra de piratas e bandoleiros que o usavam como rota de passagem para os continentes americanos. E os ranços daquela época ainda influenciavam os fiscais da Aduana.
Toquei logo um solo da Garota de Ipanema, que já havia sido lançada nos Estados Unidos, há alguns meses, no grande show de Bossa Nova apresentado no Carneggie Hall, em New York. Os assistentes gostaram tanto que pediram bis. Toquei também o Samba de Uma Nota Só e Desafinado, que também haviam sido apresentadas em NY e, talvez, já fossem conhecidas naquelas placas.
Convencido, o fiscal aduaneiro liberou-me e fui tomar a tal cerveja no bar.
Aí, aconteceu uma ótima. O chefe da banda local, o cego Blake, sentou-se ao meu lado, me cumprimentou pela pequena apresentação para a Aduana e, depois de uns drinques, convidou-me para tocar alguma coisa com o trio.
Claro – falei -, enquanto isto você me ajuda a encontrar o telefone do meu amigo Peter, está bem? Ele concordou e me deixou tocando com a banda enquanto iniciava uma pesquisa nos catálogos telefônicos e com os conhecidos das lojas instaladas no aeroporto. Toquei com eles umas três ou quatro músicas até que o velho cego voltou radiante com o número do telefone nas mãos.
Nossa apresentação musical foi um improviso muito estranho, pois os dois músicos -  um contrabaixista e um baterista - nada conheciam do novo ritmo, a bossa nova. O ano era 1967 e não havia divulgação da música brasileira fora do Brasil, muito menos qualquer gravação disponível. Tenho certeza de que foi a primeira apresentação do novo estilo no Arquipélago das Bahamas. E valeu, pois consegui o telefone do Peter, tomei umas cervejas e uns snaks for free e fui muito aplaudido o que é, sempre, um prêmio para o jovem artista. Thanks Bahamians.
Belo Horizonte, julho 2013.

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
Quem tem amor e tem calma
Tem calma, não tem amor
Adelmar Tavares

quarta-feira, 10 de julho de 2013

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VOOS RASANTES
Contou-me o Zuza que estava no gabinete do presidente de um banco mineiro, no décimo quinto andar do Edifício Comércio e Indústria, à Rua Espírito Santo quase esquina de Afonso Pena, quando um som ensurdecedor foi ouvido. Todos correram para a janela.  Eram dois North American, NA T6 (conhecidos como T-Meia), o mesmo tipo do avião de caça usado pela Força Aérea Brasileira, descendo a rua a oitenta metros do solo como se fossem dois carros enfrentando o trânsito dos idos de 1970. Uma loucura!
Da janela eles viram os olhos dos pilotos, um seguindo o outro. O de trás era um comandante instrutor do Aero Clube de Belo Horizonte, em perseguição ao piloto aventureiro, que já havia feito uma série de estripulias com o avião de combate.
A Natália, que participava da conversa, emendou com uma história que também me envolveu. Estava ela na janela do seu quarto, no quinto andar, quando enxergou um avião vindo em direção ao prédio, na Av, Raja Gabaglia, deixando-a assustadíssima. Ela achou que o cara ia trombar no prédio e, como o pai, também chegou a ver os olhos do piloto. No último segundo ele desviou do edifício e foi me encontrar estupefato no quintal da casa onde funcionava a SUPAM – Superintendência de Articulação com os Municípios, onde eu trabalhava, à Rua São Paulo, em frente ao Colégio Estadual. Estava na minha sala, no subsolo da casa, quando ouvi um barulho fortíssimo. Sem saber do que se tratava, corri para o quintal e vi o tal avião vindo em minha direção como se fosse cair à minha frente. Subitamente, o piloto reverteu e subiu. Como eles, também enxerguei os olhos do piloto que exibia, na fisionomia, um sorriso sarcástico. Com certeza, era o mesmo piloto, com o mesmo avião, o T-Meia,  que ia tirando rasantes sobre a cidade, fazendo gracinhas para a namorada, que deveria morar nas redondezas.
No caso dele, soube-se mais tarde tratar-se de um conhecido piloto, meio maluco, que costumava roubar aviões do Aero Clube e saía voando por aí, fazendo loucuras até que um dia foi preso no momento em que pousava. E, lá, não houve perdão. Foi preso e algemado até que algum juiz decidisse sobre seu fim. 
Belo Horizonte, julho/2013.
FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS

A preguiça é a sepultura dos vivos. Temístocles 524-459 a.C