quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

NATAL A SÓS?

Dia destes, fui convidado a participar de um seminário sobre “Desenvolvimento Internacional”, na Jamaica.  Aceitei prontamente, mas fui pego de surpresa. Todas as companhias aéreas que voam para o Caribe têm que pousar primeiro em Miami. Na ida e na volta. Todos os voos são via Miami. De qualquer forma, pensei, é só para trocar de avião e isto leva,  no máximo, uma hora.
Embarquei feliz, pois ia conhecer mais um novo lugar no planeta.
Em Miami, a conexão para a Jamaica foi imediata. Foi só tirar a mala de um avião e passar para o outro.
A primeira parte do seminário foi em Ocho Rios, ao norte da ilha e com poucas atrações, praias razoáveis e comida diferente. Alguém já ouviu falar em ackee? É uma frutinha que, preparada com bacalhau , dá um sabor especial ao prato típico da ilha. Nunca vi nada parecido por aqui. Trocadilho infame, hem?
Entre palestras e debates, passamos uma semana formidável.
Mas o Natal estava chegando e resolvemos marcar nossas passagens aéreas para a véspera. Assim, cada um passaria o Natal em casa.
No dia 23 de dezembro, embarcamos em Kingston para fazer a tal baldeação em Miami e chegar à terra pátria.
Acontece que o meu visto de entrada nos Estados Unidos estava vencido e comecei a viver uma situação bem diferente.
De cara, fui levado para uma sala de espera trancada. Era até bem grande, pois estavam ali, na mesma situação que eu, pessoas de todas as idades, nacionalidades, raças, credos e  cores.
Um grupo bem alegre parecia de italianos, pois de longe era possível vê-los gesticularem sem parar. Cheguei mais perto, ouvi e vi a deliciosa língua em sons e gestos. Tutti buona gente.
Num canto, um casal sisudo de louros jovens. Alemães,  ainda com o cheiro da batata assada e do “chucrute”. Sig Heil.
No outro, um grupo de camisetas e bermudas iguais com a inscrição Barbados. Fiquei pensando... Será que eles estão fazendo uma excursão pelo Caribe? Que falta total de imaginação! É como se nós, de Belo Horizonte, resolvêssemos pegar uma jardineira e fôssemos viajar pelo roteiro Betim, Baldim, Pati do Alferes, Porto Novo do Cunha e Crucilândia. Que  fim de semana bárbaro!!! Saludos muchachos!
Com isto, fui me distraindo e não percebi que o meu voo tinha sofrido um atraso  e que só iria embarcar às duas da manhã, portanto, depois da meia noite.
Os grupos foram embarcando, a salona de espera foi ficando vazia e restou somente uma família de japoneses. Impassíveis,
aguardavam o chamado para embarque. Também,  não
estavam nem aí para a passagem do dia 24 para 25. Dias normais no calendário budista. Arigatô, amigos,  pela fria companhia nessa estranha noite de Natal.
Já conformado com a situação, tratei de localizar uma daquelas máquinas que fornecem comidas e bebidas variadas. Encontrei algumas. No entanto, elas só continham sanduíches e gelatinas, com uma boa variedade de refrigerantes.
Nada de peru assado, arrozinho branco, frutas da estação, muito menos castanhas, avelãs, pistaches y otras cositas más. Quem sabe um bom espumante? Nada. Um vinho seco? Nem pensar!Uma garapa qualquer? Nem isto. Cerveja, claro, para tomar um porrezinho leve? No beer at all.
Era só refrigerante e suco de laranja, uma verdadeira tragédia.
Subitamente entra na sala uma lindíssima mulher, casaco de pele, saltos muito altos e extremamente elegante, escoltada por dois guarda-costas que não lhe tocavam, mas tinham os olhos fixos em todos seus movimentos. Os brutamontes entregaram os documentos dela ao atendente no balcão de embarque,  recomendaram alguma coisa que não ouvi e foram embora. E ela ficou só. Trocamos um olhar.
A um chamado para Tóquio, os japoneses atenderam em fila indiana, mulheres na frente, homens atrás e partiram. Saionara!
Na imensidão do Aeroporto de Miami, portanto, sobramos nós dois, a bela e eu, pois os atendentes também pediram licença e foram  para o escritório do gerente do aeroporto para uma confraternização de colegas. Trancaram a porta e nos desejaram Merry Christmas.
Assim, passamos um Natal a sós e muito bem acompanhados.
Sya.
FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS

Depressão é o excesso de passado e ansiedade é o excesso de futuro, entonces, vamos a vivir porque para dormir hay siglos. 

sábado, 19 de dezembro de 2015




ARRAZZEI
Outro dia, manifestei-me numa roda, que estava precisando de um cheiro, com o argumento de que todo velho tem que cheirar bem, vestir-se com camisas e calças bem passadas, na cor da estação, meias limpas, sapatos engraxados, cabelos e unhas bem cortados, enfim, tem que estar “nos trinques”, senão ninguém olha.
Uma das presentes logo se dispôs a ceder-me um Azzaro, perfume marcante de algumas décadas atrás, embora já usado e não do agrado dela. Uau! Aceitei na hora. Embora não conhecesse o aroma, a fama do perfume me deixou animado. Pensei: de um perfume famoso qualquer gota serve!
Peguei a “relíquia” e, no entanto, o efeito era quase nenhum, não fixava e acabei constatando que a essência não era condizente com a fama. Encostei o vidro no banheiro e, de vez em quando, arriscava umas gotinhas atrás das orelhas, sem qualquer resultado prático.
Até que um dia, meu filho Frederico mostrou-se interessado num determinado perfume, perguntando-me se eu o conhecia. Era o tal Azzaro. Claro que eu o conhecia e até poderia ceder o meu pra ele. “Uai, pai, então vou buscá-lo aí, agora, e ainda troco por outro que ganhei e não gostei”. Coloquei a “jóia” numa sacolinha e fui esperá-lo na porta da garagem, pois estava numa correria danada e não poderia subir à Toca. Ele já chegou com o braço pra fora da janela do carro, louco para experimentar o cheiro desejado. Entreguei-lhe o vidro e ele, num relance, falou: “Ô, pai, este não é Azzaro. Olha aqui o que está escrito no vidro: “Colônia masculina ARRAZÔ”. E, para confundir mesmo, com a mesma letra do original.”
Fiquei arrazado.
Belo Horizonte, dezembro/2015
Foto Google.
FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
“Não quero saber de suas leis, quero saber de seus intérpretes.” Martin Luther King


NOTÍCIA AUSPICIOSA
CHAMPAGNE PODE PREVENIR ALZHEIMER –
Composto encontrado nas uvas Pinot Meunier e Pinot Noir

teria ação contra a perda de memória. Fonte: Vinotícias 502015

sábado, 12 de dezembro de 2015

QUE CHUVA BOA!
Nesta secura em que estamos vivendo, um pouquinho de chuva é sempre bem-vindo. E hoje, saindo do barbeiro - que hoje eles chamam de cabeleireiro -, fui surpreendido por uma chuvasca danada. Saí pela rua até o meu carro, estacionado a um quarteirão, como se estivesse passeando na Savassi em dia de sol. As pessoas correndo e se escondendo debaixo de marquises e eu, tranquilo, passeando e olhando as vitrines. Consequência: fiquei ensopado. Mas, tudo tem suas compensações.
Peguei o automóvel e, entre buzinas e esbarrões, cheguei à Toca. Na hora, lembrei-me de que toda vez que chegávamos em casa molhados pela chuva, mamãe corria a nos abraçar e dizia: “Rápido, filhinhos, tirem esta roupa ensopada e tomem um golinho de whisky pra esquentar o peito”. E era o que fazíamos, a Lúcia, minha irmã, e eu. Conselho de mãe, para nós, era uma ordem.
Assim, hoje, tirei a camisa, torci bem, dependurei no banheiro e fui correndo buscar um cálice pra tomar o tal golinho. Por sorte, eu tinha uma garrafa de Jack Daniels, meu preferido, que havia ganhado (ou ganho?) do meu filho. Uma bênção!
Tomei o primeiro gole para esquentar, e mais outro e mais outro, e lembrei-me de que, numa viagem de ônibus, nos Estados Unidos, da Carolina do Norte até Miami, numa noite gelada de janeiro, consegui tomar uma garrafa inteira do mesmo Jack Daniels, cow-boy, sozinho e sem cálice. Sozinho, não; carregava comigo o meu inseparável companheiro, o violão. E entre uma canção e outra, tomei a garrafa inteira. Tão inspirado, cheguei até a compor uma música registrando o episódio que havia me livrado de uma pneumonia fora de hora e de lugar.
Bendita chuva!
FRASES.PENSAMENTOS E AFORISMOS

“Toda farinha vira pão mas nem todo pão vira farinha.” Roberto Rosselini 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

ADEUS PAPAGUENO IV
Herança dos meus tios José e Tonico, logo que me casei, decidi manter em casa um passarinho. Não que goste de pássaros engaiolados; mas os canários belgas nascem e são criados em gaiola para alegrar a vida de quem também vive engaiolado em casas e apartamentos diminutos. O bichinho é alegre e inofensivo, come alpiste, vitamina e uma mistura própria para a raça; bebe pouca água e enfeita e anima a vida dos solitários com seu canto bonito e descontraído.
Quando me mudei para a Rua Sergipe, carreguei o meu canário, já na geração IV. Desde o primeiro apartamento da Rua Chicago até agora sempre mantive um pássaro canoro para me ocupar em tratá-lo todas as manhãs e ficar aguardando seu delicioso gorjeio durante o dia. Nas minhas chegadas e partidas, dia e noite, eles sempre me receberam com um canto ou um pio, dependendo da hora. Isto porque os canários não cantam à noite, só piam.
Nesta semana, foi a vez da partida do Papagueno IV, que morreu mesmo feito um passarinho, caído no fundo da gaiola. Coitadinho, até pra morrer não deu trabalho. Embrulhei-o numa folha de jornal e o coloquei na lixeira. Simples assim.
A toca do Brandão ficou mais vazia. A presença daquela figurinha me trazia aconchego, um sentimento de chegar em casa e  me sentir acompanhado, registrado com um simples piado ou com uma sequência de gorjeios e trinados realmente confortadores e sinceros.
Foram mais de quarenta anos acompanhado pelos Papaguenos I,II, III e IV.
O nome foi sugerido pelo meu compadre Flávio Simão, referindo-se a um personagem-pássaro da ópera “A Flauta Mágica”, de Mozart.
Agora, estou aguardando ansioso o novo companheiro, o Papagueno V, para suceder o velho que me foi oferecido pelo meu filho Frederico, também doador do IV, que veio de Sete Lagoas, quando eles se mudaram para Belo Horizonte. Será que os canários de BH cantam diferente dos canários de Sete Lagoas?
Belo Horizonte, dezembro/2015.
FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS

“O homem é a mais insana das espécies. Adora um Deus invisível e mata a Natureza visível, sem perceber que a Natureza que ele mata, é esse Deus invisível que ele adora.” Hubert Reeves