sábado, 30 de janeiro de 2016

MARINA DAS DORES

Sempre perto de nós, de mim e da Lúcia, a tia Marina tem sido nossa step-mother 
a vida toda. Com amor e carinho, tomo a liberdade de escrever uma brincadeirinha sobre ela. Na verdade, nunca conheci uma pessoa tão alegre e dolorida quanto ela. Não sei como foi na sua época dourada de campeã mineira de tênis pelo Minas Tênis Clube, que honrou tanto o nome. Também não me recordo bem desta época, pois era muito pequeno e morávamos em São Paulo. longe dos esportes mineiros.
Nossos encontros mais intensos foram nas temporadas em que o papai e a mamãe se mudaram para os Estados Unidos (1947 e 1951) quando então ela assumiu as funções de mãe, tia, avó, etcétera e tal, em tempo integral. Bons tempos aqueles!
Lembro-me muito de que, entre uma dor e outra, ela nos vestia com os uniformes do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, para onde ela nos levava de bonde toda manhã e buscava na hora do almoço.
Belo Horizonte era muito pequena e provinciana, no entanto, os bondes nos conduziam com segurança e muita precisão nos horários. Para irmos ao Grupo, na Av. Paraúna, pegávamos os amarelos na Rua Ceará que seguiam até a Praça Diogo de Vasconcelos, ponto final e retorno. Apesar da famosa padaria Savassi já estar lá, instalada, ainda conservava o nome original.
Era uma infância muito feliz na casa da vovó Augusta. O almoço, uma delícia que a cozinheira/arrumadeira/faz tudo Maria, novinha no primeiro emprego, preparava com pratos gostosos e saudáveis, pois a vovó comprava do Joaquim as verduras e legumes fresquinhos trazidos no lombo de uma velha mula. 
Desdentado e coxo, Seu Joaquim subia e descia as ladeiras da cidade com suas preciosidades, cultivadas na própria horta. Ele gostava muito da vovó e sua sinceridade era pública e notória. Um dia ela lhe perguntou como ia a mulher dele, se ela estava boa e ele respondeu sem cerimônia: “Ela tá boa, dona Augusta e bem menos escangaiada que a senhora.”
Na casa da vovó moravam o tio Zé e o tio Tonico, filhos solteirões, na época beirando os cinquenta anos. Eles cuidavam do quintal e mantinham, cada um o seu, belíssimos orquidários. Na casa dela a massa do macarrão era feita em casa, os molhos eram preparados com tomates e pimentões colhidos na hora, na horta que ela mesma cultivava. Um verdadeiro luxo!
Tinha de tudo a dois passos da cozinha, onde um antigo fogão de lenha mantinha uma enorme criação de escorpiões e um forno onde se assavam os pãezinhos para o café da manhã e o lanche. O quintal era uma beleza! Ao fundo, havia uma touceira de bananas, alguns pés de variadas laranjas, dois limoeiros, uma caramboleira, um pé de fruta de conde, mangueiras de diversas espécies e um abacateiro que fazia sombra no quarador de roupas ,
Numa coluna, ao lado do fogão, ficava o poleiro do Lôro. Papagaio esperto que falava, entre outras coisas, o próprio nome, ensinado pela vovó, sua dona: bom-dia, boa-tarde e boa-noite faziam parte do vocabulário dele e nas horas certas. Sabia, também, muitos palavrões: merda, fio da puta e pqp. Ele era muito esperto e comia frutas e pão molhado que a vovó lhe dava toda manhã. Ela só parou de alimentá-lo quando pegou uma pneumonia brava que a deixou na cama até os setenta e cinco anos.
Lembro-me de que eu sentava aos pés da cama dela para ouvir suas histórias e, tipo Brandão, ficava batendo os pés no estrado. Era quando ela, cabelinho cinza puxado para trás me olhava com ternura e pedia: “Não bata com os pezinhos na cama não, filhinho, porque incomoda a vovó, viu?” 
E ali, na casa da vovó, passamos dois belos períodos com a tia Marina, o tio Zé e o tio Tonico. Sobre estes dois, vale registrar: tio Zé, atleticano doente, sofria de úlcera de estômago e vivia de mal humor. Era magrinho e, sempre, com uma caixinha de bicarbonato no bolso. Saía bem cedo para trabalhar no DER – Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais. Já o tio Tonico, mais novo e fortão, capitão-dentista da Força Pública, americano por amor e convicção, havia jogado como back no scretch do América Futebol Clube. Ainda como controvérsia mas sem resultados práticos, o tio Tonico era espírita e o tio Zé, um ateu radical. No quesito religião os dois não se entendiam, mas se respeitavam muito. Quando havia sessão espírita lá em casa, toda quarta-feira, o tio Zé só aparecia depois das dez, para não se incomodar com as velas acesas, os espíritos baixando e todo mundo rezando à mesa da sala de jantar.
Já a Maria, cozinheira de forno e fogão, gostava de fazer uma fezinha no jogo do bicho. Jogava todo dia e ficava perguntando se alguém tinha sonhado com alguma coisa e, quando alguém contava o sonho, ela fazia suas deduções. Um dia lhe contei que tinha sonhado que estava no jardim, quando vi um grilo verde pulando. Ela logo deduziu: “Isso dá borboleta, Bebeto. Sonhar com grilo tem que jogar na borboleta”. Acreditei naquela loucura e pedi uma moeda de um mil reis ao tio Tonico, para a Maria jogar. E não é que deu borboleta? Ganhamos cinco mil réis e dali prá frente, todo dia, tinha que contar a ela os meus sonhos. Por azar, nunca mais ganhamos! 
Os meus amigos e vizinhos, Wilton e o irmão Eduardo, Décio Freire (Destão Cabeçudo), Clermont Gosling, Rodrigo e Petrônio Zica, Eduardo e Júlio Brasil, passavam lá em casa todo sábado, para jogarmos uma pelada na Avenida Paraúna, hoje Getúlio Vargas, onde havia um canteirão grande de grama no meio, entre rua Aimorés e Bernardo Guimarães.
Ainda jogávamos bente-altas, finca, rolávamos nossos carrinhos de rolimã pelos passeios esburacados, trepávamos em árvores para chupar tamarindo- havia duas enormes, no quarteirão em frente de casa -, soltávamos papagaios, que nós mesmos fazíamos. Enfim, era uma infância saudável e feliz.
Voltemos a “Marina das Dores”, que descia a Rua Marquesa de Alorna para ir à casa da vovó atravessando por um lote vago na Rua do Ouro, ela ainda pulava uma pinguela na Avenida do Contorno e pegava a Rua Bernardo Guimarães até o número 305. A visita diária era para cuidar do Bebeto e da Lucinha, sobrinhos queridos. 
O telefone da casa da vovó, coisa raríssima na época, me lembro, era 2-1188.
Com um pulo na história, volto a me lembrar da tia Marina, já casada com o dentista-violonista e super bem humorado Nelson Emiliano Orsini, vulgarmente conhecido como “nirsinho de brito, atleticano, violeiro, cachaceiro futebol clube”. Apelido que ele mesmo criou quando se apresentava para alguém. 
Tio Nelsinho era uma pessoa especial e se dedicou à tia Marina com o maior carinho, cuidando das suas diversas dores a vida toda. Para ela, era um verdadeiro anjo da guarda. Ele também gostava de um churrasco caprichado, uma cachacinha e uma cerveja gelada. Companheiro de Noel Rosa e Ari Barroso, bem como, de toda uma geração de músicos da Rádio Nacional, da Rádio Inconfidência e adjacências, acompanhou grandes cantores como Francisco Alves e tantos outros. Ele era especial mesmo!
Muitos anos depois, tendo morado em São Paulo por dez anos, voltamos para Belo Horizonte e, por um período, fui morar com o tio Zé, na Rua das Camélias, na Nova Suíça. Tio Tonico morrera prematuramente aos sessenta anos, de um enfarte fulminante. Assim, tio Zé vendeu a casa da vovó e construiu uma casinha pra ele, projeto próprio, bem simples, com um quintal grande cheio de passarinhos, orquidário
caprichado e uns vira-latas pra latir muito e não morder. 
Aos domingos, ele saía cedinho para ir ao Mercado Central para fazer as compras da semana. Lembro-me bem dele naquelas manhãs, olhos azuis da cor do mar, sorriso mais solto depois que se livrou da úlcera, pernas tortas, descendo a Rua das Camélias com duas sacolas fechadas e enroladas debaixo dos braços, de sandálias de dedo e de bermudas, para pegar o lotação na Rua Desembargador Barcelos. Logo que chegava, sacolas cheias, Maria ia desembalando as compras e ele pegava uma cerveja e me chamava: “Vem cá Bebeto, vamos esperar o Nelson e a Marina.” Sentávamo-nos na varanda onde havia um jogo de cadeiras e mesa de ferro, com tampo de vidro, a cerveja gelada e uma brisa agradável. 
Logo, soava a buzina – pan,paranpan,panpan – e surgia o Studbaker preto dobrando a esquina. Mais cervejas, um almoço caprichado com arroz, feijão, nhoque, capeleti com molho de frango, goiabada e doce de leite com queijo, café esturricando de quente e muita felicidade. E a “Marina das Dores” sorrindo, feliz naquele domingo quente dos anos 1960.
Roberto H. Brandão
Março/2010

DAS DORES E DOS TOMBOS

Acostumada, como jogadora premiada de tênis a cair espetacularmente saltando atrás das bolas difíceis de suas contendoras, tia Marina caiu tanto na quadra que acabou se acostumando, também, com os tombos involuntários.
E assim, foi colecionando uma porção deles. Já deve estar no 5.837º. cinco milésimos, oitocentésimo, trigésimo sétimo tombo. Será que é assim que se escreve? É tanto tombo que o número vai ficando cada vez mais difícil de se escrever.
Outro dia mesmo, quando cheguei lá no domingo de manhã, me contou que havia caído e tinha tido uma luxação muito dolorida no ombro direito. Coitada, pensei, mas, logo em seguida me lembrei do número recorde já registrado e nem dei bola. É só mais um tombinho!.
É claro que dói, incomoda, fica desconfortável em algumas posições, mas a Marina das Dores e dos Tombos tira de letra.
Acho que este negócio de cair é mal de família, de família Hermeto. Mamãe também caía muito, tanto que no pior dos tombos ela quebrou a base do fêmur. E com 92 anos, não foi fácil. Magistralmente operada pelo Professor Marcelo Magalhães, que a colocou de novo na lida, sem muletas, bengala e nem nada. Também muito bem humorada, este um bem de família das Hermeto, ela ria muito porque o Dr. Marcelo havia colocado nela um parafusão, que ela apelidou de Dorival, três parafusinhos, que ela chamou de Marina, Henrique e Iara, seus bisnetos queridos e mais uma placa para firmá-los, que ela chamou de Lúcia, base segura da vida de todos.
Voltando a Marina dos Tombos, sempre muito expansiva, que me contou sobre um tombo fantástico e internacional, destes que devem ser registrados nos anais da família. 
Ela me contou que foram conhecer um restaurante em Santiago do Chile, onde ela, tio Nelsinho e tio Zé, foram anfitrionados por um nativo que se apaixonou por eles e resolveu mostrar-lhes a maravilhosa capital chilena
No primeiro dia ele programou levá-los para um restaurante com as seguintes palavras: “Hoy, nosotros vamos a uno de los mejores restaurantes de Chile. Vamos conocerlo.”
Ela, na frente, puxando os turistas, chegou com o anfitrião à porta do famoso restaurante e ele, cauteloso, parou a fila e disse: Oiga, despacio porque hay uma escalera en la entrada.” Marina nem ouviu, abriu a porta e entrou. Pumba! Entrou direto e despencou restaurante adentro até cair sentada no colo de um dos fregueses. O rapaz, assustado, perguntou: “Lo que pasa señora?” E ela, muito sem graça, respondeu: “Não é nada senhor, é só mais um dos meus gloriosos tombos. Desculpe-me, por favor.” 
Tio Nelsinho, tio Zé e o anfitrião vinham correndo para socorrê-la, mas ela já estava plenamente recuperada ao lado do surpreso freguês, já se desculpando! 
Coisas da Marina das Dores e dos Tombos. 

FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS 
“É evidente que quando eu falei que ia parar de beber eu estava falando de água.” Millôr Fernandes  

sábado, 23 de janeiro de 2016


O ERUDITO AFAVELADO

Pessoa de fino trato, dotado de ótima cultura geral construída nas mesas de estudo no famoso Colégio Santo Inácio de Loyola, no Rio, onde aprendeu que a maior virtude do homem é a retidão de caráter; conhecedor e apreciador da música clássica, com habilidade para o piano, inclusive com partitura; colecionador de livros que compõem uma ampla biblioteca lida, de eclética literatura; piloto brevetado como presente do irmão querido, que acreditava nos sonhos e no desejo daquele jovem de voar para as grandes aventuras até  transplanetárias e, hoje, com hábitos discretos e bem de vida, deparou-se com uma situação inusitada. No domingo, o também ex-seminarista recebeu a visita do filho mais velho que, de mala e cuia e com dois dos três filhos a tiracolo, anunciou:
_ “Pois é, pai, resolvemos passar um tempo com vocês, aqui na sua casa. Será que dá?”
 _ “Lógico!”- respondeu o antigo e acolhedor sibarita.
Feliz, e ao mesmo tempo muito intrigado, logo chamou a mulher para dar a boa-nova:
 _ “Sônia Maria, o Caio e os meninos vão passar uma temporada aqui conosco. Arrume acomodação pra todos e não se preocupe, porque os meninos só vão dormir aqui nos fins-de-semana. Durante a semana, vão ficar com a mãe”.
Tratava-se de uma boa encrenca, porque o filho acabara de sair de casa, onde a incompatibilidade de gênios com a esposa provocara a súbita separação. O lado bom seria a oportunidade que os avós teriam de uma melhor e maior convivência com os netinhos, que são meio encapetados, é certo, mas encantadores! Há ainda que se considerar a ocorrência, justo nessa fase da vida, quando aqueles avós, como tantos outros casais maduros, acreditavam que filhos criados significavam a chance de poder diminuir suas moradas, trocando-as por um apartamento menor: um quarto pra ele, outro pra ela e mais um quartinho quebra-galho, uma cozinha pequena, dois banhos, sala conjugada, duas vagas na garagem, e só. Neste caso, que nada! Embora o apartamento tenha se mostrado suficiente para os dois, as surpresas passaram a acontecer e eis o filhão de volta com as crianças.
_“Só nos fins-de-semana, viu, mãe?”- reforçou ele.
Assim, o avô compreensivo voltou a dividir o quarto com Sônia Maria, que acabou cedendo o dela. Coisas da vida, que, mesmo assim, ainda permitiram ao intelectual manter a própria rotina: ouvir Bach e Haendel, à tarde, sentado na varanda, durante a leitura do best seller da vez, regada com um bom vinho, salgadinhos e muitas cervejas geladas. Tudo na mais perfeita ordem para o sistemático vovô.
Mas as surpresas não terminaram com o retorno do filho, eis que a filha querida, residente no interior, comunicou pelo telefone que viria passar as férias em Belo Horizonte, com o marido e os dois filhos: uma mocinha e um recém-nascido.
_ “Mas, o Felipe é só no fim-de-semana, viu, pai?” – explicou, referindo-se ao marido.
Legal! Chamou de novo a mulher, contou-lhe a boa nova e recomendou:
_ “Arrume acomodação pra mais quatro. A casa vai ficar cheia e vai ser uma festa!”
Obediente e rápida, Sônia correu à casa da irmã, pegou dois colchões emprestados e  acomodou o casal na sala, o recém-nascido num bercinho, que estava no quarto/depósito, e a neta-mocinha, no corredor, num colchão reserva. Todos ficaram bem.
Cabreiro, o velho viu-se obrigado, naqueles dias, a se vestir em casa com umas roupinhas  mais comportadas e a pedir licença por todo lado por onde passava. Observou, ainda, que o estoque dos vinhos estava baixando rapidamente. As cervejas? Quando ainda achava alguma na geladeira, estava quente! Como bebem esses caras!- pensava.
Agora, diante de tanta concessão, as rotinas continuam, mas com uma nova ordem: Bach e Haendel foram substituídos por Xuxa, Angélica e Os Saltimbancos e a varanda, lugar tão aprazível para o final da tarde, está ocupada por brinquedos, bolas, jogos e roupas.
Bem cedinho, escuro ainda, levanta-se e, pé-ante-pé, depois de uma rápida chuveirada, para não fazer barulho, e com a lanterna na mão, vai catando sua roupa colocada em cima do sofá da sala. Os armários estão lotados. E os sapatos? Sabe lá! Devem estar na área de serviço. Tudo bem. Veste-se com dificuldade na área mesmo e sai pela porta de serviço, trancando-a pelo lado de fora com todo cuidado. Lépido, desce pelo elevador e, na garagem, um choque. Vai ter que empurrar três carros que estão na frente do seu, pois, educadamente, ficou com a última das vagas. Torceu o nariz.
Lembrando-se do lauto breakfast que a Sônia lhe serve toda manhã: ovos mexidos, salsicha, pãozinho estalando de quente, belo suco de laranja feito na hora e aquela pimentinha esperta, opta por um cafezinho em pé, na Savassi. Almoça num serv-serve e anima-se, ao voltar no fim da tarde, lembrando do barulho quando abre a latinha de Skol  e da história fascinante do livro que o aguarda.
Já em casa, cansado e submetido, descalça os sapatos e as meias, enfia os pés nos confortáveis e gastos chinelos e embrulha-se numa velha jaqueta com a intenção, simples,  de ficar recolhido num canto qualquer, silencioso, para ler e beber.
Distante, um observador imagina a figura do velho piloto, grisalho e com o brevet vencido, posto como um embrulho numa das cadeiras da varanda entre os varais de roupas estendidas e com um livro entreaberto nas mãos, envolto num monte de latas de refrigerante espalhadas, um baralhinho de bichos e um quebra-cabeça, papéis amarrotados de balas e chocolates, consumidos durante o dia.  É quase possível assistir ao erudito afavelado, então encantado com a felicidade dos netos a correr pela casa, esboçar um sorriso, enquanto ouve ao fundo, o Só no sapatinho.
Roberto H. Brandão – outubro/2006   
FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS

“O cinema é o espelho das artes.” Ettore Scola

Na foto,em primeiro plano, o citado erudito, já grisalho, e demais componentes da história.  

domingo, 17 de janeiro de 2016

Estava distraído aqui na Toca, ouvindo música e escrevendo, quando escutei uma falação, uma conversaria danada que parecia vir da rua. Chequei até a varanda e vi uma verdadeira multidão na porta do meu prédio, apontando e olhando para cima. Acompanhei os dedos e braços apontados e, como eles, também fiquei encantado. No alto do belo prédio, meu vizinho, que dá frente para a Rua Bernardo Guimarães, estava pousado um enorme arco-íris. Daqueles belos, que iluminam o fim de tarde da nossa não menos bela Horizonte.
Quando todos nós observávamos a fantástica aparição, surge um avião por detrás do prédio e atravessa o arco-íris em toda a sua extensão. Parecia que o piloto, também encantado, queria voar até o fim do arco-íris para descobrir seu segredo. Há uma lenda que fala sobre alguma coisa escondida atrás do arco-íris, um pote de ouro, quem sabe?
Muitos incorrigíveis românticos já andaram na busca que esta lenda excita, porém, nunca ninguém deu notícia de nada. Voltam sempre de mãos e ideias abanando. Nada além do arco-íris...
Já eu, que acredito piamente nesta história, vou continuar buscando o tal pote de ouro.
Lembro-me que estava na Jamaica, em Ocho Rios, numa região interessante, onde o rio encontra o mar numa forte correnteza, sobre a qual os inocentes turistas são induzidos a escalar, subindo pelas pedras, no sentido contrário ao seu curso. Uma loucura!
Fiquei observando os intrépidos aventureiros, meus colegas do grupo Fellows II, sentado numa ponte e rodeado por mais de uma dúzia de latinhas de cervejas jamaicanas, que são bem razoáveis. Daquele ponto, avistei um arco-íris formado no mar e que entrava terra adentro, numa mata fechada, que abrigava esta embocadura do rio com o mar. Eu estava, exatamente, neste ponto de encontro do arco-íris com a mata.
Pensei rápido: é hoje, estou pertinho do pote de ouro. Comecei a buscá-lo, com tanta crendice, que passei a enxergar coisas brilhantes em cada toca ou buraco que mexia ou enfiava o pé. Parecia um caçador da arca perdida! E, quanto mais cerveja, mais as visões de multiplicavam, claro, não pelo efeito do álcool, mas, pelo fascínio de estar tão perto da lenda. Sou muito curioso com essas crenças populares e esta do pote de ouro no fim arco-íris é universal e me fascina! Por todos os lugares por onde andei, os aborígenes comentavam sobre ela e sempre com o comentário decepcionante de que nunca tinham encontrado nada.
Ali, achei que era a minha vez. Continuei enfiando a cara mata adentro, quando surgiu uma borboleta amarela. Sempre elas a me acompanharem. Fui atrás por uns bons metros, escorregando mata afora, meio conduzido pela minha guia e pela minha imaginação, até que cheguei à praia. E o arco-íris entrava pelo mar e sumia no horizonte até onde a vista não alcançava.
Pensei: esta busca termina aqui. Não vou me enfiar no mar, primeiro porque nado muito mal e, segundo,porque não vou conseguir levar as cervejas comigo. E sem cervejas não ando nem muito menos nado. Ciao,pote de ouro.
Voltei da Jamaica na mesma condição em que cheguei: pobre, porém, muito feliz...
FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
“O preço da liberdade é a eterna vigilância.” Camile Demoulins
Foto Google. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

HÁ SESSENTA ANOS

Numa fria manhã, às 07h15, abri a porta pesada de ferro do Edifício São Miguel Arcanjo, à Rua Teodoro Sampaio, 316, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Meu destino era o Ginásio Castro Alves, três quarteirões abaixo. No meio do primeiro, passei em frente ao prédio onde moravam as irmãs Maud e Gilda, filhas de franceses, que adoravam um ménage d´amour. A primeira, branquinha, muito gostosa e muito sem vergonha, que adorava aqueles beijos de língua bem demorados, que lambiam desde o céu da boca até o sininho da garganta, que tocava em sinal de prazer e júbilo. A outra irmã, gordona e bancária, às vezes, também se insinuava, mas ninguém a queria, pelas medidas e também pelo peso daquele trambolho em cima de nós, meninos de 15, 16 anos, imberbes e fraquinhos.
Na porta do armazém, logo após a entrada do apartamento das irmãs, senti muito frio com a garoa fina, que molhava meu corpo de jogador de basquete do primeiro time do Ginásio, junto com o Aquiles e o Jalil, alas; o Pega-Balão, pivô; e o Claudinho, ataque. Que timão, aquele! Na esquina da Rua Oscar Freire, entrei no botequim do Auro e comi um pedaço de pizza de muçarela com tomate, especialidade da casa. Com certeza, a melhor pizza da minha vida! Era o meu café da manhã, pois, a mamãe já estava de pé, mas, muito atarefada para despachar o papai para a Faculdade de Higiene, a um quarteirão acima lá de casa. Papai também ia a pé, porque o carro dele, um Mercury 1950 preto, do ano, ficava guardado na garagem da Faculdade, pois, nosso prédio não tinha garagem, como a maioria dos predinhos novos de São Paulo, na gloriosa década de 50. O carrão só andava aos sábados e domingos, quando saíamos para um passeio ao Jardim Zoológico ou ao recém-inaugurado Parque do Ibirapuera.
Fui descendo a rua e, no quarteirão seguinte, passei pela casa do Renatinho, num prédio pequeno, com uma entrada estreita, ao lado do bar do Auro, onde havia uma escada íngreme para chegar ao pequeno apartamento de quarto e sala, onde morava com a tia. Ele ficou órfão de pai e mãe ao sobreviver a um acidente de carro, na Via Anhanguera, quando os dois se foram.
Mais abaixo, na esquina com a Rua Alves Guimarães, a Casa Jorge, onde a mamãe comprava os tecidos e aviamentos para suas obras de arte. Madame Brandão, dizia seu cartãozinho de visitas, era mestra na alta costura. Tirava os moldes da revista Burda e copiava com competência os modelos lançados em Paris, por Pierre Cardin, Lanvin e outros não menos famosos.
As lojas iam se abrindo: portas de correr, de subir, de aço, de madeira, enormes cadeados e fechos. Os paulistanos, ávidos por começar o trabalho, olhos inchados do pouco sono, cabelos desalinhados da manhã, iniciavam mais uma jornada na cidade escura e úmida.
A Livraria do Renatão e do Waldir, do outro lado da rua, continuava fechada, pois, muito boêmios, os dois deviam estar curtindo a brava ressaca da noite anterior.
Mais um quarteirão e, na esquina, o Ginásio Castro Alves, quando tive que correr para pegar o portão aberto para não perder a chamada para a primeira aula. Com o Latim, começamos o dia letivo.
FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
“O público é uma besta feroz. Deve-se enjaulá-lo ou fugir dele.” Voltaire  


sábado, 2 de janeiro de 2016



Feliz 2016, simples assim!
Ontem à noite, 31 de dezembro, saí pedindo que não me desejassem mais LUZ e PAZ. Já estava cheio das duas. Cheguei a me sentir uma lâmpada caminhando pelas ruas e com tantas pás, que não suportava mais o peso das mesmas.
Pra quê tanta paz, pra quê tanta luz?
O mundo ficaria uma chatura com toda essa claridade desejada. Há que se ter escuridões de vez em quando. Já pensou um beijo de amor sob holofotes? Não tem graça nenhuma. Ou uma paz perene, dessas cansativas onde todo mundo se cumprimenta alegremente embora com ódio no coração? Um super fingimento, mais uma super chatura!
Sem nenhuma filosofia barata, acredito que na vida tem que ter de tudo um pouco. Uma guerrinha amorosa é uma delícia, um escurinho fortuito é um presente.
Neste começo de ano, vou levar adiante o que disse um filósofo canadense, creio, numa de suas apostilas: “Depressão é excesso de passado e ansiedade é excesso de futuro.” Vamos viver hoje, aqui e agora, intensamente. O complemento é da minha lavra. Simples assim. Feliz 2016!
FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS

Corpo bonito e aquele que tem uma pessoa feliz dentro dele. Anônimo