segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O DESTINO DE CADA UM

Encontramos uma vez, o Roberto Brant e eu, com o Mileto, irmão do meu querido afilhado João Stamatto, num Scotch Bar na Av. Angélica, em São Paulo.
Ele tocava clarineta/saxofone na banda do Hermeto Paschoal. No intervalo, ele foi até a nossa mesa, nós dois felissíssimos, pois não nos víamos há muitos anos e o convidei para sentar e tomar um drinque conosco. Ele agradeceu e disse que os músicos não podiam beber no recinto. Heim? Então, o convidamos para tomar uma cerveja lá fora, no bar da esquina. Topou na hora. Em pé, no balcão de mármore encardido de um velho bar paulista, tomamos umas cervejas deliciosas e recordamos as mil e uma noites em que, em Ribeirão Preto, tocamos na noite e fizemos serenatas, com certeza, per tutti belle donni de la cittá. Naquele momento solene de um encontro de dois grandes amigos a conversa fluiu no mesmo timbre e nível daqueles tempos e ele, subitamente me perguntou: “Você está fazendo o quê?” Respondi, hesitante: “Eu sou advogado, e você?” Ele me olhou no fundo dos olhos e, desafiadoramente, respondeu: “Eu sou músico!”. Quase batendo no peito de orgulho por ter escolhido uma profissão maravilhosa e de acordo com sua formação prática na vida. Nós tínhamos passado metade da vida tocando e cantando juntos em Ribeirão  e em quase todo o interior de São Paulo: Franca, Araraquara, Campinas, Jundiaí, Sertãozinho e muitas outras. Nós éramos os músicos da época. E esta frase dele foi tão forte pra mim que uma furtiva lágrima escorreu no meu olho esquerdo. Uma só. Ele não viu mas o Brant percebeu e ficou quieto, não fez nenhum comentário. Bebemos mais uma só, ele tinha que voltar para finalizar a apresentação da banda. Voltamos à nossa mesa e tomamos um derradeiro drinque, pois, eu estava arrasado. Voltamos para o Hotel sem dar uma palavra. O Brant foi muito sábio, não comentou nada.
Afinal, foi uma escolha minha, ao invés de ser músico, tinha decidido ser advogado. E bem que tive chances, muitas. Nos Estados Unidos, numa determinada época, um pouco antes daquele encontro, havia lecionado violão para uma brasileira, Valucha, cantora e artista plástica que morava em Chicago e que me conseguiu um emprego de professor de violão na Folk and Country School of Music, em Chicago, onde poderia ter iniciado a carreira. Ela e eu gravamos um LP, capa desenhada por uma artista local, com 18 músicas que nunca soube do paradeiro dele. Encontrei um apartamentozinho em Old Town, zona boêmia da cidade, para morar e começar minha carreira. Nada disso. Não deu certo. Eu era apaixonado demais! Abandonei o projeto.
E assim, com a paixão e pela paixão, transformei um músico razoável num advogado medíocre que acabou transmudado, com o tempo, num publicitário de relativo sucesso. Ces’t le destin. Coisa inexplicável, mas, irreversívelmente, verdadeira.
Naquela hora, aprendi uma lição definitiva. Nunca pergunte sobre o destino de alguém quando você não tiver a resposta que gostaria de dar. Fatalmente, ele vai devolver a pergunta, e aí, você chora. Chora mesmo, porque a gente não consegue mudar o próprio destino, este traço que alguém risca para nós e pronto.
Ninguém consegue. Sem nenhuma filosofia barata: de onde vem isto?
FRASES, FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS
“É preciso fazer o mundo inteiro cantar. A música é tão útil

como o pão e a água.” Heitor Villa-Lobos

domingo, 21 de fevereiro de 2016

OS DEVASSOS DE GARULHOS

Tem dias que a gente acha que não vai acontecer nada. E acontece tudo ou quase tudo.
Embarquei num voo atrasado de Washington para São Paulo, que deveria chegar no Brasil às 10:30 e, no entanto, desembarcamos às 11:30, esgotados depois de um voo de nove horas e meia. O avião, um Boeing 777, penúltima geração, muito confortável. Sentado no corredor, ao lado de uma senhora de Lewistown/Montana, a segunda do dia, que falava e perguntava pouco. Do jeito que eu gosto. Tenho horror de quem entra na fila para o embarque e já, na escada ou no finger, começa a perguntar, de onde você é? prá onde você vai? e outras bobagens. Tenho vontade de responder como meu impaciente e neurastênico tio Aureliano: “vou para a China meu amigo!”
Não me interessa nada dessas prosas, pois já viajei com todo tipo de vizinho: industrial de caixas de fósforos, de rodas de liga leve, de camisinhas, comerciante de livros, promotor de eventos, músicos e, mais recentemente, turistas, pedreiros, aventureiros, voluntários para ajudar na luta contra o aquecimento global e outros bichos.
Assim, ao lado da senhora de Montana, fiz uma viagem silenciosa, seca (só uma cerveja a US$ 6,00) e cansativa. Chegamos em Sampa às onze e meia e corri para embarcar no vôo das 12:10 para Belo Horizonte. É claro, perdi o delicioso Duty Free Shop, na corrida passei limpo pela alfândega e, ainda, perdi o avião para BH. Apesar de ser uma conexão, a TAM não me deixou embarcar. Fizeram o favor de me embarcar no voo das 16:45. Reclamei por dentro e por fora, inutilmente.
Fui parar num bar chamado Devassa onde já havia tomado umas, na ida. Que sorte a minha! O bar, nome de recente marca de cerveja, é sensacional. Aliás, o ambiente de qualquer aeroporto é sensacional. É só sentar e ficar vendo o movimento. Gente de todo tipo, de toda raça, de toda língua, com todo tipo de bagagem, passa por ali. E eu adoro isto!
Sentado num canto, tomando conta da bagagem de mão e da indispensável capa de chuva, consultei o cardápio. Existiam três tipos de cerveja: a Devassa Loura, a Devassa Ruiva e a Devassa Negra. Pedi uma Negra e umas batatas fritas pra passar o tempo. Eram 13:00 e havia tempo de sobra. Lá pelas 14:00 entraram duas jovens senhoras, que esperavam para o embarque num vôo para Salvador/BA, como soube depois. Acho que também pediram cerveja, sem especificar o tipo. Acabei a minha e pedi novamente: “Por favor, mais duas Devassas Negras”. As duas olharam pra mim assustadíssimas e perguntaram: “O quê é que o senhor quer?” Brinquei: “Só duas Devassas Negras. Vamos ver como elas vêm.” Aliás, pra quem não está no ambiente ou acaba de chegar, é uma surpresa! O quê será que vai chegar? E a garçonete trouxe as duas cervejas absolutamente normais, engarrafadas long-neck, bem geladas. 
Falei com elas: “Estão vendo? Nada de mais”. E as duas dispararam a conversar e a contar suas vidas. Eram duas irmãs que não se viam há algum tempo e resolveram passar umas férias na Bahia para conversarem mais à vontade, sem pai nem mãe, irmãos, tios, sobrinhas e avós. “Free again”, como confirmaram em uníssono. A mais velha tinha cursado uma bolsa de estudos nos Estados Unidos e casou-se com um colega americano intragável, que ela só descobriu depois de casada. Disse que o cara implicava com tudo, desde os sapatos que usava até do penteado mais moderninho. Era um “chato de galochas”, segundo ela. Abandonou o marido, no segundo mês do casamento e fugiu para a Califórnia: Los Ângeles, onde fez de tudo. Peripécias incríveis! Brinquei com ela: “Você, então, é uma devassa branca”. Elas riram muito, pediram outras e a mais nova começou a contar suas aventuras no Brasil. Primeiro saiu muito cedo da casa dos pais e foi morar em Santos, sozinha. “Ninguém para me dar ordens. Odeio ser comandada!”
Mas, encantada com um halterofilista, melhor, fisiculturista, rato de praia, que passava dia e noite na frente do espelho fazendo caras, bocas e músculos. É claro, durou muito pouco tempo o conluio. Separou-se, enquanto não tinham filhos porque o narciso era barra pesada: praia, espelho e cama dia e noite”. Virou “free-lancer”, segundo ela, até que a irmã Rafaella a convidou para uma viagem a Los Angeles. Juntou algum dinheiro e se mandou para a Califórnia.
Na verdade, só me contaram o que achavam que podiam ou deviam, mas, fiquei imaginando as duas free em Los Ângeles. Deve ter sido uma loucura! 
Brinquei de novo com elas: “Então, conheci mais uma devassa branca”. E assim ficamos até a hora dos embarques, primeiro o delas, depois o meu, com diversas devassas, as brancas, minhas amigas da última hora e as Negras, minhas amigas de sempre.
Ciao,Guarulhos!
FRASES, PESAMENTOS E AFORISMOS
“A verdadeira arte de viajar... A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa, como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo...” Mario Quintana

domingo, 14 de fevereiro de 2016

GINCANA EM RIBEIRÃO QUE ACABOU NA PRAIA GRANDE

Lembrei-me de uma ótima história acontecida nos anos 1960, ainda em Ribeirão Preto.
Numa tardinha sem qualquer perspectiva tocou a campainha lá de casa e era
o Luiz Roberto Leitão Teixeira, amigo paulista que havia conhecido em Belo Horizonte numa vez que aqui esteve em visita ao José Luiz Andrade. Eles trabalharam juntos numa corretora de valores em São Paulo e ficaram amigos.
O Luiz era um paulistão típico. Era porque nunca mais tive notícia dele e não sei, portanto, se ele mudou nalguma coisa. Ele sempre foi um pouco exibicionista, pois, era conceituado como um grande talento para as operações financeiras e, assim, ficou meio metidinho. Nunca me importei com estas presunções passageiras e convivemos muito bem.
Depois que me mudei para Ribeirão, de vez em quando ele aparecia para um chope no Pinguim, um bate papo animado sobre carros, meninas, etc. Foi um bom companheiro.
Pois é, naquela tardinha apareceu o Luiz cheio de planos. Eu havia contado a ele sobre uma gincana que o pessoal de Ribeirão estava organizando e ele resolveu participar. Alugou um fusquinha em Sampa e se mandou pra terrinha.
Ele não se hospedava lá em casa. Não cabia! Meu quartinho só tinha um sofá de dia que virava cama de noite. Não tinha nem armário, só o violão e um gravador numa mesica ao lado da cama onde eu escutava, toda noite, as melhores do festival de San Remo de 1963. Músicas maravilhosas que eu canto até hoje: Al di La, Il Nostro Concerto, Legatta a um Granello di Sábia, Arrivederci e muitas outras.
Tempo bom aquele...
Assim, o Luiz, Lúcia minha irmã e eu formamos uma equipe para disputar a ginkana, que constava DCE uma série de tarefas a serem executadas nuns limites de tempo que, quem fizesse o melhor tempo, ganharia. Na verdade, era uma grande farra para movimentar o fim de semana na, ainda pacata, cidade da cerveja. Nossa classificação foi ridícula, embora tivéssemos cumprido todas as ordens. É que a gente dividia as tarefas com uns copos de chopes o que, sempre, atrasava alguns minutos. Uma irresponsabilidadezinha, felizmente, sem consequências.
Mas, deste encontro de brincadeiras, eu e ele combinamos de ir para São Paulo no final da semana seguinte, pois, o Luiz havia conhecido umas alunas do Dês Oiseau, colégio chique de São Paulo e queria me apresentar para a turma.
Ele passou lá em casa na sexta de manhã e partimos para São Paulo, sacolinha forrada de maços de cigarros, um calção, sei lá porquê, e umas roupinhas leves.
Ele dirigia muito bem e, de fusquinha, fomos em três horas da porta lá de casa até a casa dele em São Paulo. Ele ligou o carro, enfiou o pé no acelerador e só o tirou quando estacionamos na garagem da casa dele no Ibirapuera. Trezentos e trinta quilômetros só de estrada. Um recorde!
Falei – “Você é um ótimo piloto. De fusquinha com o pé no talo, fizemos a viagem em pouco mais de três horas.” Ele sorriu e me olhou com uns olhos azuis de gozação: “Você sentiu algum medo? Não, porquê? Olha aqui.” Pisou no freio que foi até o fundo. Não tínhamos nada de freio. Zero freio. Sorriu de novo e falou. “Fizemos em três horas porque eu não tinha freios. Se tivesse...”
Tirei minha sacola do carro e entramos na casa dele. Nothing to say.
 A família dele era muito organizada e disciplinada. O pai, senhor pai de cinco filhos homens, cuidava de todas as informações para o dia-a-dia dos filhos. Os ônibus vão mudar de itinerário, as ruas x e y mudaram de mão, estão tirando os bondes da Teodoro Sampaio, vocês tem que sair mais cedo, etc., etc. Um verdadeiro paizão. A mãe, menos impositiva, cuidava bem da casa e da cozinha.
Era uma ótima cozinheira. Preparou um Cuzcuz Paulista inesquecível.
Não sei como as meninas do rigoroso colégio conseguiram sair. Acho que fugiram, mas estavam, pontualmente, na esquina da Av. Angélica, esperando por nós às 8 da manhã.
Entre sete e oito horas, consertamos o freio da máquina numa oficina de um amigo do Luiz, na esquina da casa dele. Era o “burrinho”que estava com um vazamento.
Como o programa não havia sido combinado e não sabíamos o que elas topariam fazer, levamos calções, camisetas e roupas de praia para convidá-las para o fim de semana em Santos.  Elaseram muito chiques...e, talvez, estivessem esperando um programa mais sofisticado, sei lá, em vez de Santos ir para o Guarujá ou nada disso, só dar uma volta e almoçar num restaurante bacana. Uma incógnita. Nos Estados Unidos eles chamam esses encontros de Blind Date, com razào.
E o encontro deu certo. Convidamos para o fim de semana em Santos e as disseram, uníssono, dormiremos em quartos separados, está bem? Claro, quem poderia pensar de outra forma?
Dois rapazes sedentos de amor e duas quase freiras, também sedentas mas muito comportadas?
E o amor pegou fogo!
Descemos a Via Anchieta comportadamente a 80 km/h, sem qualquer risco, num dia chuvoso, cinza, sem nenhuma graça. Em Santos, decidimos seguir para a Praia Grande, na época inóspita e com muito mais chances de um programinha livre. Sem espectadores nem famílias controladoras. Paramos numa região sem condomínios, bem vazia, e trocamos de roupa atrás do fusquinha, com o maior pudor. Delas, naturalmente!
E fomos nadar. Correr na praia suja e de areia cinza. Sem nenhuma graça. Uma delas perguntou: “Vocês trouxeram alguma coisa pra beber?” Olhei pro Luiz e ele entendeu. As meninas estão animadas, querendo uma aventura mais excitante...
Que ótimo! Tínhamos trazido uma garrafa de vodca escondida debaixo do banco do fusquinha pra não assustar as meninas e eram elas que estavam botando fogo no programa. Abrimos a vodca quentíssima, sem gosto como qualquer outra e resolvemos fazer um piquenique.
E a festa começou! Tudo que era puro e inocente, só na nossa cabeça, claro, na minha e na do Luiz, virou uma grande farra. As meninas resolveram fazer um topless só pra mostrar os peitinhos porque não tinha nem sol...
E aí foi um tal de rolar na areia grossa e suja da Praia Grande até cair a noite.
E agora? Onde vamos dormir? Uma delas sugeriu: “Eu durmo com o Luiz no fusquinha e vocês buscam um canto aí na  praia. Ela é grande, não é?”Brincou.
Foi minha primeira vez sob as estrelas do litoral. Acabei dormindo em muitas outras, aqui e alhures: Ubatuba, Ilha Bela, Puerto Plata na República Dominicana  e Tobago, no Caribe. Sobre a noite na Dominica já escrevi relatando a mais bela visão da Via Láctea que já tive. Só ali, compreendi a dimensão do universo...
Voltando à Praia Grande, hoje um município independente no litoral Santista, conseguimos um belo refúgio no meio da areia e das graminhas que separam a praia do mato. Foi bom. Muito bom.
Aquelas meninas do Dês Oiseau eram muito levadas.
FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS

“Nunca deixe de não fazer amanhã o que pode deixar de não fazer hoje.” Millor Fernandes

sábado, 6 de fevereiro de 2016




CARNAVAL EM NEW YORK
É tão esdrúxulo brincar o Carnaval nos moldes brasileiros estando em New York, mas, às vezes, acontece.
Morava com dois brasileiros e um americano no Greenwich Village, num apartamentinho que, na verdade, só servia pra dormir. Quando estávamos os quatro em casa, se chegasse uma visita, um tinha que sair. Um bequinho mesmo, mas éramos felizes. Eu conseguia quebrar o galho monetário com umas aulinhas de violão que permitiam a refeição de hot-dogs e hambúrgueres mais duas Cocas, tudo dividido por quatro. Assim, íamos tocando a vida.
Eis que chega o Carnaval e a notícia de um baile no Paramount Hotel, organizado por brasileiros, com a presença de Booker Pitman e sua filha Eliana, para um show no intervalo das danças carnavalescas. Ficamos muito excitados, pois a colônia brasileira na cidade já vinha aumentando e as brasileiras presentes iriam ajudar os gringos a sambar. Eles eram meio desengonçados para os ritmos brasileiros. Soubemos, ainda, que haviam chegado umas gatinhas turistas ávidas por uma festinha.
O Ivan, nosso companheiro de aventuras, foi ao Paramount e apurou que a entrada era free; só exigiam a consumação mínima que deveria ser marcada numa ficha conferida na saída. Azar de quem não consumisse, pois teria que pagar assim mesmo.
Juntamos os parcos dólares, suficientes para nosso consumo, e rumamos para o hotel.
Para nossa surpresa, tocava lá, ainda, uma sobra de alguma escola de samba que havia passado pela cidade e lá largado alguns dissidentes, que nos proporcionaram uma noitada muito animada, E viva o Carnaval novaiorquino!
 FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS

“O preço da liberdade é a eterna vigilância.” Camile Demoulins
Foto Google. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O RENATINHO
Lembro-me de que nos encontrávamos todos os dias depois da aula. Cada um saía do seu ginásio/científico/clássico, para um papo descontraído na Rua Arruda Alvim, no bairro de Pinheiros, em São Paulo.
Nosso ponto de encontro era num degrau na entrada de uma Vila vizinha à casa da Marília. Naquele degrau, que cabiam uns três, ficávamos conversando sobre os acontecimentos do dia e a programação para a semana. Uma rotina que ocorreu - pelo menos para mim -, por uns dez anos  até quando me mudei para Belo Horizonte, no início dos anos 1959.
Numa cidade que começava a se transformar numa grande metrópole, jovens dos quinze aos dezenove anos, nossas únicas preocupações eram com a frequência às aulas - só com a frequência porque as notas passavam longe de nossas cabeças. Estas eram uma preocupação somente para o final do ano por causa dos riscos de bomba e segunda-época que, na realidade, não nos abalavam. No meu caso, foram duas bombas seguidas, no primeiro científico do Colégio Mackenzie. O que nos interessava mesmo era o dia-a-dia. Sem saber, já praticávamos o existencialismo sem filosofia de “viver o aqui e o agora”. Vivíamos o presente, nada mais.  As nossas namoradas eram as mais lindas e numa variedade enorme de cores e raças. Quanto mais variedade, melhor; no entanto, sempre mantínhamos um namoro sério com uma delas. Eram as nossas eleitas. Naquele papinho descontraído da turma, combinávamos uma cerveja mais tarde no “Bugre”, restaurante Caverna do Bugre, que ficava na Av. Teodoro Sampaio, debaixo do apartamento onde eu morava.
Certo dia, o Ná e eu estávamos tomando uma cerveja no Bugre quando minha irmã Lúcia entrou assustada e disse “Maninho, papai falou que vamos nos mudar de novo para Belo Horizonte porque ele pediu demissão da Faculdade.” Ficamos arrasados e num ímpeto de coragem resolvi registrar aquele dia fatídico na parede no Edifício São Miguel Arcanjo, onde morávamos. Pedi um prego o Sêo Alexandre e lá fomos, eu e o Ná, procurar um lugar para registrar o acontecimento. O prédio tinha as paredes com acabamento irregular, mas na esquina, bem perto do portão verde de ferro, achamos um espaço lisinho onde registrei a minha despedida.
Sessenta anos depois, numa viagem de negócios a São Paulo, reencontrei o Ná no velho Bugre.  Em determinado momento ele quis me mostrar alguma coisa e me levou lá fora.  Resistente às inúmeras demãos de tinta e meio apagada lá estava a minha frase: Fui fácil, 1959.
Ná, querido amigo, descanse em paz.
Belo Horizonte, fevereiro de 2016.
FRASES, PENSAMENTOS E AFORISMOS

A vida é um palco. Nós todos somos atores. W. Shakespeare